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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

PRANTO DO ATOR

Assim, chorou o ator,
em primeira atuação,
quando o pano descerraram.
Na platéia, surda velha
escutava a todo pio.
Bateram em sua bunda,
de cabeça para baixo,
e ele chorou como nunca,
porém bem mais choraria.
Puseram na sala ao lado.
Ele ansiava por Ela,
a Diretora Geral,
Mãe de belos odres plenos.
Quando ela se aproximou,
carinhosa como sempre,
ele pulou com furor:
cravou gengivas de pedra
naqueles odres em flor.
Esvaziou-os até
ficarem murchos de dor,
só que se encheram de novo,
e ele esvaziou-os,
e eles bem mais inflaram,
e ele os desinflou,
branco espedaçado em sangue,
e assim foi se instaurando
um hábito inarredável
de mamar e desmamar,
sob o sol cotidiano,
cada ano seu de vida.
Terminou sem os tapinhas,
sem aplausos, ovações,
no mesmo leito que havia..
O teatro cheio de mofo,
A velha surda no estofo
E a comadre gris vazia.
 
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