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sábado, 27 de abril de 2013

ESCREVEMOS PORQUE(reelaborado)

Escrevemos porque alguém sempre nasce,
alguém sempre morre
e porque sempre para alguém que escreve tem alguém que lê,
porque é insuficiente respirar e insuficiente a algema para prender o constante cordão umbilical,
porque alguém quer sempre libertar-se ou mesmo ferir-se de palavras e solidão e companhia na mesma mão e contramão motiva a escrever com a tinta do útero da Mãe.
Porque não temos irmãos
e os temos como coelhos,
porque os teus olhos são azuis ou pretos ou vermelhos,
porque as menores atitudes motivam, as maiores estimulam, porque nunca nos entenderemos e sempre nos falaremos e choraremos, assim como insensíveis sensibilizaremos.
Porque temos moral,
porque somos imorais, amorais, carnais,
porque usamos terno, porque temos cargo, encargos, desemprego, camiseta regata, porque adoramos funk, rock, porque detestamos música, porque vivemos pouco, muito, e sempre alguém nasce enquanto morremos e alguém morre enquanto nascemos demasiado amnióticos.
Escrevemos porque o sol morre e nasce, dentro e fora.
Porque comemos ovos e não os comemos,
porque o ventilador funciona e não há luz,
porque o mar regurgita e baleias surfam e golfinhos sonham dominar o mundo, porque as ondas são espumas na boca envenenada do oceano, porque é doce a rocha entre os dentes das ilhas.
Escrevemos porque se parássemos simplesmente pararíamos e nada mudaria, então não paramos na pausa do vento, e vamos às crateras do teu rosto feminino e amarelo.
E se há filosofia insuficiente na suficiência das marés, entendemos que é só pegar o lápis e seguir o ciclo.
Escrevemos porque um dia alguém guiou nossa mão sobre as linhas que desobedecíamos.
Escrevemos porque a frustração de não nascer em perfeição de árvore nos tomou.
Escrevemos porque não podemos nos casar com a borboleta que surpreende-nos o jardim.
Escrevemos porque queremos acreditar que é verdade a mentira de ciscar letras.
Porque existem mulheres delicadas nas janelas do sol.
Porque existem plantas vestidas de nudez de avenca.
Porque existem galhos de seios redondos e de amor macio.
Porque existem uvas que apertadas dão gozos excelentes de safras infinitas.
Por isso, escrevemos na dor o prazer de termos pouco tempo para muito anseio.
Escrevemos porque imaginamos olhos sobre o papel como barcos felizes vazios de pentagramas em eternidade.
Escrevemos pra deixar um pedaço de nossa carne banhada no sangue do signo.
Porque alguém sempre espera que escrevamos o seu nome verdadeiro. Na verdade, tudo isso são palavras.
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