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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

UMA ENCOMENDA (OU A RESPOSTA MATA)




Encomendei uma torre.
Chegou há pouco.
Barulhos tremendos ouço.
Ela se parece com uma caixa comum,
retangular, paredes laterais,
baixo, cima, bem vedada.
Bato nela com o punho.
Mas nada. O barulho tá lá.



Me lascando os ouvidos.
Não vejo a mínima fresta.
Que merda é essa? O quê?

Bem, merda vem do latim.
Pejorativa, quer dizer caralho.
Merda é muita coisa: polissêmica.
A gente digere e o que sai
É expulso pelo ânus (cu),
Se este estiver vivo (pisca pra ver).

O barulho é como de um choque de mistério.
De alguma coisa enganchando noutra.
...Se eu abrir a caixa acabará?
É que pessoalmente começo a gostar.
Começo a gostar de não abrí-la.
A gostar da tortura que causo
Em estranhas criaturas concentradas,
Querendo sair e eu não deixando.

Desleixo. Saio e deixo ela em casa.
Tenho de ensaiar uma peça que me quebra.
Nunca ensaiei uma peça que me quebrasse.
Essa foi foda. Quase me perdi. Não, me perdi.
Estou perdidamente apaixonado pela paixão
Que tenho ao dentro dela antes de vê-lo.
Louco isso. Louco. Como gostar do amor
Antes que se ame o objeto que o vibre.

Volto a casa antes do sol acabar.
A caixa ainda está lá. Um rasgo agora.
Ponho o dedo e sou picado.
Rasgo a caixa, irado como um soco.
Olho o que há dentro: letras e mais letras
Saem dela pra meu pensamento.
Jogo no lixo a caixa vazia. Estou cheio.
Acabou-se o mistério. A resposta mata.
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