Postagens populares

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

TRAVESSIA NOVE

(Urbana Paisagem)

Corta a cidade, a atravessa,
a grande avenida, como um pensamento
atravessado por uma malícia,
a avenida lembrando um fio de carícia
no rosto da cidade, o sexo a penetrar
a cidade, a grande avenida nove,
serpente de asfalto e fome,
fome de pneus, de calçados
de corredores, calçados de madames,
moças, pés descalços, pequenos ratos,
cachorros, acidentes, paradas, desfiles,
a grande avenida nove,
com história de escravos atrás de si,
corta a cidade a nove como o rio de João,
o talhe de Maria na carne do tempo,
como o sonho de Martins furando o real,
como a moto no corredor, atalho
à minha pequena casa-cidade,
onde pérolas nascem e renascem
no coração da concha-lar

O sangue da cidade nessa grande avenida
empoeirada e melada de ambições, ideais
concretos, ou de concreto, asfalto, fezes de cachorro,
uma grande cauda de um extremo a outro,
uma grande cauda de vestido azul,
quantos exploradores ali perpetraram
assaltos legais e ilegais, jogos de
avenida-cobra-tentadora-arrebatadora,
onde as luzes bailam na noite,
seu cheiro do nada-tudo humano,
circunferências, engenhosos relógios
no pulso de suas artérias,
mulheres e homens, mendigos astronautas,
borrifam de humanidade os sapatos
dos anjos transformados,
os dedões dos jovens escuros
de tanto beber as noites,
febris ostras de caos

Mas dizem que há esperança
Postar um comentário