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QUANDO ESCREVO

O equilíbrio? Sei lá eu. Se o encontrasse, pararia? Pois o mundo já pendeu, E esta tarde está fria, E inclinada um tanto, E, quando escrevo, Escrevo num ângulo De trinta graus, Bêbado de signos

SUFOCADO DE MULHERES

Moravam ali fazia dez anos. Foi a primeira casa do bairro Jardim Costa e Silva. Três cômodos. Uma casinha até bonitinha, graças aos cuidados dela. Ele chegara há pouco da eterna procura por emprego. Iam levando a vida se beneficiando de planos governamentais, enquanto a maré estava brava. Chegou, nem cumprimentou a esposa. Já sentou e se serviu da comida, ainda quentinha. Ela ficou olhando. Ele de um lado da mesa mastigava com dificuldade. Ela, do outro lado, começou a desfiar sua teoria nada patriarcal. - Sabe o que eu acho? Se fossem os homens que parissem. Escuta bem. Se fossem os homens que dessem á luz. Se. Se as mulheres é que, nos tempos primitivos, fossem caçar, hoje não teríamos um Deus e sim uma Deusa. Ele não se contém. - Mulher, você está com o demônio! - Me escuta. Se as mulheres desde o início fossem o sexo forte, teríamos uma Deusa, sim. Porque seria um sistema matriarcal. - Mulher, para com isso. Você tem que se humilhar, se colocar aos pés do Senhor. - Perante um Deus...

NOITE NOITE

Se soubesses,  Noite, o quanto és tudo neste vestidinho preto, estrelado, riscado de cometas, mais cedo chegarias para seduzir-me ao sono. E a ti me entregaria para sempre, notívago escriba, sem cobre  e sorte. Mas não saibas. O sol já vai chegar.

MAÇÃS VIBRANTES

Lembras : vibravam maçãs  no rosto do Olimpo. O horizonte dos ossos  na serpente era a fome de estar... Lembras que o poente  suava de te olhar? E as manhãs? ..Quando abrias a casa  o sol te invadia os cabelos. Não havia leis anti-corpos  no convexo -  côncavo.

NO CAMINHO DO COLÉGIO JÚLIO

Até o colégio um caminho inóspito. Havia crocodilos. Conhecia a sombra de um. Olhava pra trás não tinha ninguém. Olhava pra frente ninguém também. O jacaré de papo amarelo então saía. E ficávamos a papear sobre pernas grossas. No caminho, passavam pernas de todo tipo. Vez ou outra, uma fêmea apertada no mato. Ouvíamos o esguicho sem cano típico. Eu, excitado, pedia um tempo ao jacaré. Era um tempo de eu ser gênio sem lâmpada.

NÃO HÁ AINDA

Não há coração ainda. Ele está se formando. Um ponteiro vai girando. Há um almoço nu esfriando. Só haverá coração quando a carne se entender com os ossos da alma. No baile das palavras, o tempo é cardíaco.