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Mostrando postagens com o rótulo natanael gomes alencar

BRIGUE DE OZ

Éramos ventos ausentes de poesia e ali na mesa carecíamos de vela que nos dirigisse....até que...o brigue de OZ surge dos lados do ser  numa vela docemente melancólica no momento exato e esperado para consertar nossos ares e nos tornamos crianças no pensar embora escondêssemos nossos cavalinhos de gude ou tentássemos engolir nossos verdes sensos...

LADY GODIVA

Lady Godiva,  flor de Conventry, cego fiquei, mas um tanto guardei do ventre que olhara. Senhora, a lua desce sobre os telhados e a sinto mais agora na pele das cegas retinas. Um raio guardei de tua justiça. Outro raio de tua astúcia, minha estultície. E ainda outro de mirar teus cabelos, cachoeira a cobrir cerviz e meu arreio: anseio de perecer ao sol de ti.

HÁ GENTE QUE SOFRE II

Há gente que sofre por falta de ego/algo em si-mesmo-no-outro. Há gente que sofre excesso de dor de poesia. Há gente que sofre de fome e de sede de briga com a palavra. Há gente que sofre por morrer o carro sem estrada no ar. Há gente que sofre por ter prestações todas pagas com a pele. Há gente que sofre por ser imprestável o bolo que fez pela internet. Há gente que sofre por ser magro e alto como a peste. Há gente que sofre por ser gordo e baixo como um sub. Há gente que sofre por envelhecer jovem, sem púbis. Há gente que sofre por não aumentar a folha de pagamento trabalhando. Há gente que sofre por morar no gelo do freezer. Há gente que sofre por rachar os pés com o chão afiado. Há gente que sofre por achar que sabe a data do começo. Há gente que sofre por saber que é tarde cedo. Há gente que sofre por saber-se morto ainda vivo-ontem. Tem gente que sofre por querer justiça para sua cerca. Tem gente que sofre por querer desviar porões para sótãos. Tem gente que ...

CARNE DE MINHA ALMA, OUVI-ME

Carne da Minha Alma, ouvi-me!  Vós que suais todos os meus cansaços! Vós que sentis todos os meus tremores! Ouvi-me! Vós que estais fadada a sentir e a ressentir e a dessentir as peles do mundo! Vós que passais largo tempo cheirando todo o pó das incertezas! Vós que roçais paredes, muros de linguagens, ocultas e claras! Vós que sois o amparo de meu logos/ossos! Carne da Minha Alma, ouvi-me! Vós, que encho de cuidados contra acnes de mágoas, feridas de anseios,  vitiligos de ódio, manchas, gorduras de sadismos cruéis, beliscões extremos de invejas, fedores humanos! Vós que me encheis de esperanças tolas de que um dia sejais eternamente limpa e sem fedores!  Carne da Minha Alma, ouvi-me! Vós que gemeis de anseios, de dores, de sede, de fome, oriundas da dúvida nem sempre livre, nem sempre pura, nem sempre impura, de que existo! Vós que vos encheis de infinitos ante o toque da Poesia do Universo! Vós que tendes vontade de Viver depois do ...

NÃO PERCA TUA ALDEIA DE VISTA (PARA LEONARDO SÓ)

Estás voltando para tua aldeia, depois de tanta luz e tanta sombra. Mais sombra e luz ainda virá. Para isso fomos feitos: para os defeitos das virtudes e para as virtudes dos defeitos. Como Ulisses retornou à Ítaca, depois de enfrentar os monstros em si e fora, de arrostar o deus invejoso, os feitiços do amor. Estás voltando à aldeia. Lá o espera o quê? Mais esperança? O primeiro amor? Últimos amores? Não pecaste contra o céu. Não és indigno tanto assim. És humano como a glória de o ser. Os porcos são grandes professores. Um aperto no coração? Gastaste sem temperança. Beijaste os lábios das egípcias que se davam nos becos, comeste o manjar das hetairas modernas de São Paulo, empurraste a vida nas paredes, na ânsia de perpetuar-lhe o prazer. Vestiste o melhor da Fenícia. Calçaste sandálias de legítimo couro. Mas tudo é tão efêmero. Mas tudo é tão efêmero. Sobreveio uma grande fome. Teu coração teve fome de amor e estás voltando para tua aldeia.

TIRAS DE ESPELHO

Espelhos esparramam Tempo sem reprise: Um corpo tão falho Vendo outro em crise. Botox esboçam Em tiras de espelho Vaidade e suas poças De face em vermelho. Dar vidas às mãos, Dar-se ao vivo mar, Gerar mais demãos De espelho a fartar. Dispor a vida toda No poema, vão reflexo, Apesar dos vasos Quebrados, convexos.

SE CARONTE É HUMORISTA

O sonho não vê a morte. Ou o sonho a desconhece? Pensar nisso me dá norte. Mas não pensar é mais messe. Morte é o final de nascer. Sei que isso até despista. Mas o que posso fazer se Caronte é humorista? Porém, se a morte se afirma e o que sai de mim claudica, suavizo este jardim e o verso salva a cantiga. Você me diz, ó moderno, que sou velho e a voz sandice? Mas nem falo,  só escrevo tudo em fluir de apocalipses.

CONVERSA FIADA

Sou branco. Meu ser não recebeu Batismo de tambores. Mas tive bisavó negra, Avô da Andaluzia, Cigano tom nas veias, Ascendente holandês (Com dente), Português, tupi, Mas sou branco, Pálido, sem encanto. Sou branco, envelhecido, Mas nasci com Carmen Que me enfeitiçou Dançando ao atabaque Que Maria Benzedeira Me tocava ao fim da tarde Na Fernando Costa Perto do Seu Aires Que me deu a cota De amor ao futebol Que me basta. Sou branco, ator, poeta, E não sou a não ser Quando estou no sentir-me.

DEUS, SOFTWARE (APOCALIPSE)

O que mais procuro Se apresenta dentro Do que necessito: Verbo coentro corpo Corpo inscrito na alma, Sem inermes nexos Bom sítio de amarmos,  Apesar dos vermes E do Fim que os Maias Ternos nos trouxeram? Mas o poema é velho: Fala e talha o que era Poema ou parabellum? Inexato ou falho? O Eu em revertério Com largado logos (Deus sem software Em modo esperado?) Quebre o Mundo em Festa-  Lipse e em clarins

FEITO DE CORTES

Quando escrevo, Exercendo minha força, Abro rochosos papéis Com lâminas de letras. As minhas lâminas sem fio Fazem cortes semânticos E internas rochas Adrede esfarelo. Por isso, sou forte de cicatrizes.

PONTUAÇÕES ACHOCOLATADAS

Quando a lua era o mais puro brinco da noite antiga, e mistérios se apresentavam alucinantes, aparecias, Etíope Princesa Escrava, carregando nos olhos mil impérios, não de ouro, faiança, ametista, lápis-lazúli, cornalina, turquesa, feldspato, mas de esperança de amor, tornando-te galáxia de palco no peito da Ópera de Verdi. Uivavam signos em ponto final, esvaziando os cantos das pirâmides, e, sob a guilhotina de teus olhos, pintei para ti um pescoço-texto com pontuações achocolatadas.

O ...É

O ....é Barco sempre adernando E vindo à tona: poeta. O.... é oceano sólido De peixes líquidos. O .... é eis: Passo reto e Torto: ser esse: Poe(mar)ando O ......

CERTO, SOU INCONSTANTE

Certo, sou inconstante. Mas veja bem: se me gostas Isso é importante? Haverá a certeza sobre ti em mim? Neste mundo estranho a mesma pergunta se repete: O que sou? Quando sou? Como sou? E o que faço Quanto ao gume de alheios canivetes Sobre os pobres de quebradiças almas? Um dia terei uma casa feita Em tijolos das poças da infância: Quando deitar sob a terra, um teto Fechado, sem reentrâncias. Mas agora, o bom é sonhar No Bistrô da Brasil, sentado, A canção do Vinícius na mesa Com cãezinhos engarrafados Afogados em chopp, Que não me ensinam nada.

TRAVESSIA ATÉ O SER DE PAPEL

Lembras dos cães em nossas almas? Quando encarnaste em meu verso com sífilis, Quando nasceste em rocha filipina, Quando reencarnaste puta gangrenada, Quando salvei-te de um suicídio Num daqueles esgotos franceses? Quando nasceste como um bicha inglês, E me chupaste o membro com cancro? Minha corcunda de então tremeu E fiz eu mesmo teu assassinato Empalando-a nas grutas de Lascaux. Venho dos tempos antigos, de Quando as conchas marinhas tinham xotas! Em nossos castelos vampíricos Deusas do mar vomitavam! Nossos mordidas nas moças da aldeia Eram certeiras e fartas! Quando nasceste mendiga africana, O urubu bicando teu filho morto No primeiro dia do ano 1970 Era minha mais torpe encarnação... Sem dor devorava teu fruto! Foi quando me mataste a dentadas, Arma de mãe; depois reencarnaste Como cigana presidenta vendedora Doceira prefeita deputada e me esqueci, Virando um ser de papel. Venho dos tempos sem céus, e Hoje, neste teste pra TV, Me encarno em um livro de terror Que entreabres inoc...

DINOSSAURO DE ESCOMBROS

Um indiferente penedo Ignora seu ser-chuva. Ausente de escudo, o sísifo Suporta a erosão do ser. Espera quem sabe o meteorito Que o redesenhe Antes de ir e enterre O cagado de seus escombros. Talvez quando chegue à velhice Ou de tanta gula de paisagens Recrie as órbitas do fervor perdido Por crenças de fim.

LIVRO DE OLHOS VAZANDO

A pele num canivete de nuvem,  e então dobrar a morte antiga, couro caindo, sentindo a vida nova em flor,  orvalho e centelhas nos pés de algum livro de olhos vazando como o corvo de pelúcia piviano escorrendo vísceras poéticas pela faca nas costas

EGO PALRA(DOR)

Se foram felizes? Não sei. Eu louco Ainda corre, guerreando, De um cerro pra outro, Aperreando o perro  Do Estige. No fim da novela, Veloso, o veloz Autor de  EU LOUCO Morre Num pau-de-arara, Atropelado Pela ditadura Palradora do Ego.

ÚNICO QUE TENHO

O unicórnio que tenho no espelho fosco está gordo  não come mais as frases doces nem bebe o que o corpo espreme. Vive olhando a alma do chão com medo da morte um olhar cego como apaixonado por escorpiões. O unicórnio que tenho chamado de Solidão ou de Molibdênio. Tem a mim só. Mas vive de cenho no chão mandando uma ordem: me ame me mate. imagem acima : ANDERS ZORN -  Nosso pão de cada dia

CONCHA ENCONTRADA

Fo i uma concha encontrada. Séculos de história atada. Suspensa foi para a foto Dos dedos do arqueólogo Com cheiro de século em papel. Mas a concha nem aí. Só lhe importava os céus Na voz de um útero antigo.