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CUSTA CUSTA CUSTA

Custa muito a lucidez tanto quanto a honestidade custa pagar todo mês custa o peso da idade custa amar desamar custa o engano da inverdade custa os olhos que não amam os corpos que não se invadem por diferença de anos ou por medo de arriscarem custa andar sem vontade voar sem asas sem ares custa acordar no catre custa dormir na cidade custa se entregar ao roubo custa o preço da verdade custa a amizade justa que com amor faz colagem o amor à primeira vista o amor só de passagem custa viver para a morte sem preparar a viagem custa seguir sempre em frente quando tudo se faz tarde e aceitar a falsidade grande nas coisas pequenas custa findar o poema como custa custa custa

ESCREVER CHEIO

"Não temamos enfrentar novos públicos, antes porém enfrentemos poltronas vazias" Foi Dioniso que jogou essa uva na minha lagoa de letras fermentadas. Jogou com toda a força que fez tremer Téspis em Delfos. Para representar cheio, começar escrevendo no tanque onde o vinho da palavra nasce.

RECEITA DE ESCRITOR PROFISSA

Escritor que faz palestra  dá receita de poesia de romance  de conto só não dá receita de blasfêmia,  matéria-prima do que se pretende fundamental para cuspir na cara da literatura convencional de vez em quando ou em sempre. Escritor profissional que precisa ganhar dinheiro dando parcelas de seu saber que não é nada contra o saber da vida e da morte e do bar diz que literatura se faz com medidas que a poesia tem trinta centímetros que o conto tem quarenta e que o romance tem trezentos depois ao final com remorsos diz que o que vale é tomar um porre de respiração. Escritor profissional que precisa mostrar caminhos pois já passou da idade sabia o sentido e o cheiro da blasfêmia só que já esqueceu. Eles detestam Clarice.

ABSORÇÃO

Irrefutável e irreversível, Globalizada, terceirizada, Reestruturação de máscaras, Furtando espaços autênticos E vínculos orgânicos. Absorção de mercado, Morte consolidada, risos trevosos, E o sangue forma um coágulo Em meu espírito armado De vazios pontiagudos. Há cadáveres nas ruas e lojas, Escorrerão sempre no escuro Clareando a culpa.

DAQUI NÃO ME LEVANTO

Daqui não me levanto Estou cansado, fico, Deitado me edifico,  Mas basta uma palavra Uma palavra sua Para me erguer como um deus Ou como um gigante filisteu Ou como um Senhor dos Anéis Embora tenha meu anel no prego Ou melhor Não diga nada Não quero nenhum esforço Vai provar o amor de outro... Além do mais acordei agora Meu pau tá duro, a cueca apertada, E eu estou com vergonha. Fora.

POUCO SEI DOS ANOS QUE TALVEZ

Pouco sei ou devo nem saber do pouco que. Sei do atrito no começo da montanha, por exemplo. Não, não te assustes de eu o saber. O primeiro – um anão que assassinaste lá onde o atrito é mais cruel - na tua alma. Perfuraste suas falsas ideias de inusitadas altitudes com tua usual habilidade baixa. Vestiste as roupas do anão que assassinaste. E por anos que. Talvez se. Pouco sei ou. Sei que querias chegar além dos cimos com silêncio completo. Mas por gritar alto pouco sei dos anos que pulaste, talvez.