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ESTONTEADO DE ONTENS

Ontem, eu vi Skins, E então chorei por Freddie. ...Não sou tão frouxo assim Como parece. Ontem eu li um conto, E nele eu me reli, Chegando em ponto, Ao por-me um fim. Ontem pesadelos: A noite era sombria. Nua em meio ao gelo, Você, alma, gemia. Estou doente, em dor, Disse-me Caronte, De um grande amor Estonteado de ontens.

TALVEZ MUDASSE

Meus olhos, baças vidraças: As flores talvez não morressem Nas trilhas destas paredes Se não partisses daqui de dentro Com toda terra adubada que juntamos. O mundo talvez mudasse de repente Com nossa terra adubada de vivências comuns.

PARA TENENTE LEONARDO MACHADO DE LACERDA (Tragédia em boate: Tenente carioca morre após salvar colega e tentar resgatar menina)

Você não para, rapaz? - É preciso ir lá. Mas quantos já salvaste? - Perdi a conta. Então, fica, respira. - Ficar não conta. E lá foi lá foi à pira. Amava o que fazia. Sem medo da perda que haveria. Da festa a que faltaria de sua amiga em flor. Das piadas que não mais diria. Das dores que embora em sangue nos enchem a vida vazia. Do amor ferido que eleva o ser embora ao peito dolorido. Não veria mais aquele rosto, aquelas pernas, aquela cintura, aquelas flores, aquelas pinturas, aquele cachorro de olhar humano, aquele livro, site de cultura. Vejam, ele entra na boate e traz uma vítima. Volta logo e traz uma outra e mais outra. Salvar outro e mais outro nunca é demais. Um amigo grita, ele vai e o traz. Só não consegue salvar uma menina. O fio de sua vida se desfaz. Tinha planejado, quiçá, um passeio de norte a sul do Brasil. Queria sentir mais chuvas. Queria sentir mais ventos. Queria muito mais momentos. Abrir uma velha carta de amor. Um velho retrato da primeira... Ouvir mais um so...

FAÇANHA DOS OSSOS

Faço a façanha e a forço E o aço do verbo assanha À faca farsas que acosso Em gramática agnóstica. Faço a façanha e adoço As entranhas pernósticas De grácil verboso troço Que vira incerteza exótica Da qual extraio os ossos E os ponho no papel.

ENGENHARIAS

Engenharias Não exigem arrancos De emoções Nos verbais cantos. Os lápis se perdem De montar metais Nas redondas retinas Racionais. Espremidas as flo(letras) Entre parafusos No tabuleiro das letras De esquadro concreto.

SIGNO SOL GIRASSOL

No signo sanguíneo, A espada do dia. Na coroa de rosas, Espinhos noticiários. No espaço da massa/papel, Curvado o verbo em babéis. No oceano/tempo da letra, O salto do novo Ícaro. Na linha do corvo/sol,  O girassol sobre o abismo.