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VEJA BEM

Veja bem, querida... Se acaso amanhecer do anoitecer em nossos prados Se acaso trovejar o chão de lado Se acaso a vida assim brotar De um céu pisado como sangue Se acaso a porta abrir fechada Mesmo em meio ao vão Se outro eu nascer morrendo embora enfim Se acaso transitar o corpo enquanto o digo Se me embeber do que Eros me serve E que jaz no monte e vale em seu umbigo Mesmo em meio, veja.

FERIDO DE LUAS

Pra fazer dores apareceste No umbral da minha manhã. Me atingiste com perdas na visão. Me atingiste com pedras no olhar. Tuas retinas doíam-me no peito. Lancetaram-me e sadicamente Simularam uma estocada perfeita Com a borda de teus olhos. Teu ser feriu-me de luas pois Anoiteceram-me a faca e o garfo Que estavam em minhas mãos Para comer minha porção de sol.

MAGNO DIREITO

Sei que, de mãos calosas, um homem Pode derrubar um prato. Mesmo tu, Sem calos, adquiriste o direito A derrubar o fogo de Prometeu. É teu o magno e inelutável direito De esfarelar a luz Moldando signos em carne escura E de chorar como quem assistisse novelas E tivesse os olhos mortos em todas elas.

DESPREZAMOS A CADELA

Ficou a casa escura. A porta fechada. A cadela mugia. Cadela ou boi? Como um boi-nostalgia. Mudamos para nichos de plástico. E continuamos indo a nossas igrejas. Repito, a velha casa ficou escura. As paredes descascadas. Infiltrações no teto. A porta fechada. A cadela mugindo. E a gente via de longe. A salivar ante o findar Da cadela Ética, Que foi morrendo lá dentro, No lar que abandonamos. Apesar de jurarmos amor à cidade, Deixamos a cadela lá.