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ESPERA PARA APÓS

Espero para após As mádidas delícias. Embora agora os pássaros Do espaço gargalhem, Seus cantos proféticos Ajudam na espera. Minha espera não esgarça, É aço e o tempo a tempera Em sua alça.

COMIDA NÃO É SÓ

Se eu te prometer Muito mais depois Cumprir e amar-te com arroz e eter? Se eu me dominar Quem já me sou? Amores me farás No corredor? Se me vem a sorte E eu puder estar Acima da morte, Podes lalentar? Se tentar mudar ou Se viver de boa, Me enluarás Em tuas broas?

FOME DO TEMPO

Se tudo fica muito escuro e não dá pra pegar a xícara e não dá pra achar a escada nem pra achar o chuveiro e nem pra dar comida ao cão é que o tempo parou de dançar por solidão e fome mas se você lhe der pedaços de alma o tempo dança em recomeço e há razão de crença no espaço da tempestade em você que tateia o inquieto mar e tudo pode voltar a funcionar na casa de dentro do poema sem outra chave que não esta

SONETO DE ÁGUAS DIVIDIDAS

Necessita o eu de estar Onde vai a noite a pino. De tanta lua, me sonho Sol soltando os intestinos. Que vença a morte outros versos, Que nos meus há muitos medos, Por não ser muito disposto A ter coragem nos dedos. Necessitam que me mude, Que concorde e seja imerso Em valente atitude. Mas o espelho enxerido Se estilhaça e o interno açude Medra águas divididas.

EM UM FILME NA TV

Estava eu sobre o sofá Bebendo um vinho gelado. Passou em um calhambeque Dentro de um filme afamado. Passou na tela um instante. Foi pro lado e assim sumiu. No filme, sumiu, fantasma Que todo o meu ser buliu. Paixão buscada em canção, Sem palavras condoreiras, Uma pintinha em seu queixo, Rosto de flores brejeiras. Desejo ou tola vontade? Amor ou vão sentimento? Tufão ou vento de luz? ...Nascente flor de momento. Desejo que morde e assopra, Desejo a gemer de medo. Feito em gostosa preguiça. Desejo em tela, segredo. Estava eu no sofá Olhando o filme, calminho, E a moça do filme olhou-me Piscou-me e cuspiu no vinho.