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VENTILADOWN

Ventilador. O som. Atenção. O dia aquieta aos poucos pés e mãos. Há profundidades que só descobrirei ao final da noite. Espero antes ver o luar.  Espero apreender mais uma vez o luar. Uma máquina fotográfica.  Um carregador. O ventila- dor. Espero ver o luar. E aprendê-lo. E apreendê-lo. Prendê-lo à fala. Carnavalizá-lo. Comer o luar. Como BIS. Nas pedras pintá-lo. Ninguém pinta como eu Pinto. Mas por ora O som do vento. Digo: Atenção! O tempo! O dia se vai e a noite vem. Há profundidades que só as rugas têm. Aos olhos: uma máquina fotográfica, um carregador, Um cigarro. Um retrato. Varre-me O ventila- DOWN.

ENCERRADO

Encerrado: em seu dedo médio,  o sangue, em bis, em pus os pés. Encerrado: em seu dado mádido a folha, o orvalho, o tronco, a fé. Encerrado: em seu pátio o peito em bolhas, talho a telha em dez.

NÃO SEI DAS MUITAS FALAS

Não sei das muitas falas, sei dos muitos silêncios ante metas altas e caminhos densos. O silêncio ante as ruínas da voz que existiu, mesmo em seu canto no sonho que seguiu. Não sei das muitas balas no ombro, peito e ventre. Sei do revólver alçado no gesto fóbico.

LÁ VEM O CARRO DE CHURROS

Lá vem o carro de churros de leite e de chocolate! De tanto correr atrás quase que a magrela bate. Lá vem o carro de churros de chocolate e de leite! Maria pequenininha arregala, dando aceite. Lá vem o carro de churros de leite e de chocolate! O cachorro corre atrás, mas o gato lhe combate. Lá vem o carro de churros de chocolate e de leite! A portuguesa nem olha, prefere pão com azeite. Lá vem o carro de churros de leite e de chocolate! Rô escolheu Julieta e na morte deu empate. Lá vem o carro de churros de chocolate e de leite! Mato o tempo. Só me prende o poema, por deleite.

PASTELEIRA

Quero dessa pasteleira os seios de camarão. Depois, quero ser mosquinha entre os meios de teus vãos. Quero um pastel, pasteleira, de carne de boi pego a laço. Depois, quero-te faceira e nuazinha num abraço. Quero um pastel, pasteleira, regado a catupiry. Depois, quero na soleira um naco salso de ti.

GRAFITEIRO

O grafiteiro grafita o muro da prefeitura. O poder sai nu na rua, de cuecas, furibundo. O grafiteiro grafita o prédio de madrugada. Vê a modelo dormindo e desaba da escada. O grafiteiro é tão bom que até passa o grafite no narigão do bom Deus, que, de rir, chove do chiste.

APAGÃO

O apagão apontou, A casa se encolheu. Será que sou quem restou? Ou quem desapareceu? Tudo se tornou um breu, Sombras suando nos vãos. Incendiados com velas, Anjos rolam pelo chão. Acendi o meu escuro, Luzes fiz de escuridão. O amor ferindo o eu, Arpoado tubarão.