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TIRANDO O RESSECADO TEMPO

Enquanto aos pés do eu a vida colhia seus olés, o súbito contentamento de estar na pele das coisas abria a flor perene. Folhas começaram a cair das estrelas próximas, folhas verde-metálicas mascadas por lábios de nuvens, abraços de sorvetes de mercúrio e sonhos de circos alados, e andavas de luz em luz, bem devagar,  enquanto o eu tirava o ressecado tempo no sangue da noite.

DE DENTRO DO MEDO

Desde o primeiro vagido O medo Desde o primeiro medo A submissão Desde a primeira hesitação Fortaleceu-se O mito do medo E seu deus O filho à morte Desde o primeiro arremedo De choro Desde as primeiras estrelas Desde a primeira clava Que atingiu a partir do medo Mais de dez mil cidades Do primeiro afeto Desde cedo A cidade de dentro Do medo de amar Pegava fogo

MULHER É MAIS DO QUE FLOR

1. Rosa, imersa n'espinhos, Perfumes tantos aflora. Mulher num mar de carinhos, Estrela estendendo auroras. 2. Hortência, alegria colhida, Estilhaço em luz, gozo é vê-la. Alegria em céu de partida, Mulher grávida de estrelas. 3. Tulipa, molhando os cabelos Com elegãncias azuis, Pingo a dançar com anelos De amor, no fulgor da luz. 4. Margarida, flor perene, Fácil, de bom cultivar. Sob um palco, a mulher treme, Bem nos quer por bem se amar. 5. Dália, marulhando o ser, Flertando com o sol perfeito. Mulher a se desprender, A espetalar preconceitos. 6. Em suma, flores vitais A florir tempo infinito. Mas mulher é mais que flor, Doendo amor em cada mito.

TEMPO CURTO

....Eu só tenho a poesia. Não sou tão belo como soía. Trago algumas queimaduras Que são tão feias Quanto as tuas. Como ser poeta sem ter carne viva Para o beliscão das coisas sensíveis? Não sou tão belo quanto aos 20. Sou mais frustrado que aos 30. Com menos saco que aos 40. E tou na área aos 50. Eu só tenho a poesia. E muita gente na cozinha Querendo me ajudar No devorar dissimulado. Como ser feliz sem ter o alimento Para o tato acre da sede viva da morte? Pode a morte surgir de súbito, Pronta, num breve assédio. O tempo é curto pra piscar. - A morte tá indo ali! Mate-a! Peguei! - Enganei a Sombra na casaca do ovo! (Era o Triunfo, aos ombros do Tempo.)

FALEI A VOCÊ

Ah, falei a você da raspadinha? Feita com raspa de segundos. Lhe falei da aposta? E que esta noite tá besta. Me doem as costas. E que o coração é o leme. Da alma em mares tortos. E que o corpo salga o espelho.

SAUDADES

Saudades. Gorjeios. O cheio ser venta árvores que cantam folhas. Por outro lado, venta chuvas na goela da vida. Penas das asas na goela fremente da alma engasgada.

SEU ESPELHO CANTAVA

Atirou-se na banheira, sua pele ganhando a consistência líquida da água. Seus órgãos ficando azuis como sonhos de pureza. Ao sul, um pássaro com bico de nuvem. Ao norte, um canto de andorinha parando o tempo. Quando ressurgiu na banheira, seu espelho cantava.