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MULHERES E O TEMPO

Uma mulher real carregará sempre em si milhares de mulheres do rio do tempo Para no espaço de um momento expô-las com um gesto cotidiano Um gesto que as marque como únicas no espaço diário dentro/fora Uma mulher como um deslizar sobra as ondas de um mar oculto Como pegar um tubarão pelos dentes quando o leite falta e o pão rareia... E inverter as ilhas para o fundo e reeditar nas horas o tom feliz Uma mulher real sempre trará em si uma imensa força de reconstrução E deslizará na direção do amor sobre as ondas do homem real E fará degelar os icebergs do coração da história do homem

E É NOITE

A noite copula com meu pensar. Não há estranheza nisso. A noite me receberá sempre bem. Nasci nela com olhar nublado e nu. Há um resgate da crueza infantil. A realidade diurna me irrealiza.

METAMÓRFICO

Metamórfico, o poeta abre as asas esburacadas. O lago está seco. O lobo brinca com o leão do outro lado. Pelos buracos das asas sóis desconhecidos pontilham os caminhos. Há sangue na roupa do mundo. Há velocidade demais para a fome. O poeta não dorme. Ensopado da chuva temporã.

ANDOU ENTRE NÓS

Depois de cortar as asas, andou entre os homens. Cortou-as, com dor, pois dor se permitia. O pó ficou nos dedos, ele voou-se no elo que o fez ver nuvens sem camisola. Desceu pra terra, escorregando em arco. Ao colidir com avi- ão, caiu no chão. Atravessou a rua Com fome e fuselagem. Do outro lado, duas palavras viu. Pegou-as e devolveu-as ao silente próximo deficiente de palavra. Depois voltou ao ponto de origem. Tirou do seu sangue pedaços sonolentos de meteoro e deu-os aos pássaros dos beirais. Estes os ancestrais dos nefelibatas.

CHORO AZUL

As ruínas marcam os pés, sustentam a tarde não sem horas de ossos tensos, não sem dores sonolentas, não sem chorosa desavença.  A cal que desprendem cega o muro que eu fôra. É que a chuva cai por dentro, perfurando o agouro das paredes e tetos e chão, mergulhado pela onda úmida do choro azul.