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ESPELHO CLITHEROE

Prendo minh’alma no espelho, onde me vejo irritável, um enorme nariz respirando tensões ao quadrado.  Prendo no pó da ansiedade tudo que os olhos aturam dos fatos. No espelho do poema espalho a palha que hoje mesmo será levada pelo vento: em Clitheroe, Inglaterra, amigos contrariam a lógica e empalam com sua desumanidade uma garota vítima de estupro.

MULHERES E O TEMPO

Uma mulher real carregará sempre em si milhares de mulheres do rio do tempo Para no espaço de um momento expô-las com um gesto cotidiano Um gesto que as marque como únicas no espaço diário dentro/fora Uma mulher como um deslizar sobra as ondas de um mar oculto Como pegar um tubarão pelos dentes quando o leite falta e o pão rareia... E inverter as ilhas para o fundo e reeditar nas horas o tom feliz Uma mulher real sempre trará em si uma imensa força de reconstrução E deslizará na direção do amor sobre as ondas do homem real E fará degelar os icebergs do coração da história do homem

E É NOITE

A noite copula com meu pensar. Não há estranheza nisso. A noite me receberá sempre bem. Nasci nela com olhar nublado e nu. Há um resgate da crueza infantil. A realidade diurna me irrealiza.

METAMÓRFICO

Metamórfico, o poeta abre as asas esburacadas. O lago está seco. O lobo brinca com o leão do outro lado. Pelos buracos das asas sóis desconhecidos pontilham os caminhos. Há sangue na roupa do mundo. Há velocidade demais para a fome. O poeta não dorme. Ensopado da chuva temporã.

ANDOU ENTRE NÓS

Depois de cortar as asas, andou entre os homens. Cortou-as, com dor, pois dor se permitia. O pó ficou nos dedos, ele voou-se no elo que o fez ver nuvens sem camisola. Desceu pra terra, escorregando em arco. Ao colidir com avi- ão, caiu no chão. Atravessou a rua Com fome e fuselagem. Do outro lado, duas palavras viu. Pegou-as e devolveu-as ao silente próximo deficiente de palavra. Depois voltou ao ponto de origem. Tirou do seu sangue pedaços sonolentos de meteoro e deu-os aos pássaros dos beirais. Estes os ancestrais dos nefelibatas.