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COMUNGAR

Comungar com os cavalos, Após levantar a xícara, Ler as mensagens do esterco, O desgaste das botas, Um naco de feno comer, Tomar o café, beber A profecia da borra: A fina faina da escrita. Esfregar o poema. Depois, olhar o mundo, Esfregando o estar nele Com perplexidade de gnomo.

FELIZ COMO UMA RISADA

O poeta desistiu. Não devia mas desistiu. Nada o demoveu. Tinha de ir.  Foi. Quando voltou, estava molhado de sonhos rotos, ferido de choques de ondas, mas como uma risada aquecida num bar.

PARTIU COMO ERA

Embora em paz, Partiu com medo Do que mostraram No jornal diário, Em sangue fresco. Partiu como era, Inexata medida, Sem ter o saber Do exato sentido, Enquanto se atirava. Partiu com desejo De querer bem mais Do que a vida lhe abrira, Embora os vários cortes Do medo na pele sua.

MODO DE PECAR DELA

Não conheceram sua aldeia primitiva. Não conheceram seus sorrisos vegetais. Nem o barco de frutas naturais. Queriam castigá-la pela coragem da nudez. E invejavam também seu modo de pecar Banhando a vagina da alma no relevo da lua.

ESPELHO CLITHEROE

Prendo minh’alma no espelho, onde me vejo irritável, um enorme nariz respirando tensões ao quadrado.  Prendo no pó da ansiedade tudo que os olhos aturam dos fatos. No espelho do poema espalho a palha que hoje mesmo será levada pelo vento: em Clitheroe, Inglaterra, amigos contrariam a lógica e empalam com sua desumanidade uma garota vítima de estupro.

MULHERES E O TEMPO

Uma mulher real carregará sempre em si milhares de mulheres do rio do tempo Para no espaço de um momento expô-las com um gesto cotidiano Um gesto que as marque como únicas no espaço diário dentro/fora Uma mulher como um deslizar sobra as ondas de um mar oculto Como pegar um tubarão pelos dentes quando o leite falta e o pão rareia... E inverter as ilhas para o fundo e reeditar nas horas o tom feliz Uma mulher real sempre trará em si uma imensa força de reconstrução E deslizará na direção do amor sobre as ondas do homem real E fará degelar os icebergs do coração da história do homem

E É NOITE

A noite copula com meu pensar. Não há estranheza nisso. A noite me receberá sempre bem. Nasci nela com olhar nublado e nu. Há um resgate da crueza infantil. A realidade diurna me irrealiza.