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O TEMPO ADOÇOU O AMOR

O leve tempo adoçou-lhe o amor, A inundação dos fatos, Cantado pelos grilos aos casais. A rua estava em câmera lenta. A lua apoiava-se no cume da serra, De crateras semicerradas. Uma estrela acendia quando outra apagava. A espaços, um anjo acendia uma lanterna.

SUICÍDIO MALOGRADO

Quando fui ao fogo, não morri de imediato. Salamandras me cantaram, semitonando um bocado. Entrei na casa da quente fogueira que me tomava. Tomei um banho em centelhas, sentei como o rei da casa. Me serviram drink em febre, a canção "A vida é Breve", e ao canto grave da Morte deixei o fogo de leve.

POEMA SUICIDA

Meu poema sem fecho  Está fechado no livro Com vida em bolhas. Vedou todas as folhas. Pôs línguas lá dentro. Só observo, na mesa. Logo, forçarei a entrada. E farei boca-a-boca Na poesia fechada.

COMUNGAR

Comungar com os cavalos, Após levantar a xícara, Ler as mensagens do esterco, O desgaste das botas, Um naco de feno comer, Tomar o café, beber A profecia da borra: A fina faina da escrita. Esfregar o poema. Depois, olhar o mundo, Esfregando o estar nele Com perplexidade de gnomo.

FELIZ COMO UMA RISADA

O poeta desistiu. Não devia mas desistiu. Nada o demoveu. Tinha de ir.  Foi. Quando voltou, estava molhado de sonhos rotos, ferido de choques de ondas, mas como uma risada aquecida num bar.

PARTIU COMO ERA

Embora em paz, Partiu com medo Do que mostraram No jornal diário, Em sangue fresco. Partiu como era, Inexata medida, Sem ter o saber Do exato sentido, Enquanto se atirava. Partiu com desejo De querer bem mais Do que a vida lhe abrira, Embora os vários cortes Do medo na pele sua.

MODO DE PECAR DELA

Não conheceram sua aldeia primitiva. Não conheceram seus sorrisos vegetais. Nem o barco de frutas naturais. Queriam castigá-la pela coragem da nudez. E invejavam também seu modo de pecar Banhando a vagina da alma no relevo da lua.