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BOCA, OLHOS E CHEIRO

Enfie esses dois olhos no retrato que eu os pegarei se estiver farto. Enfie essa boquinha no armário que depois acharei depositários. E o cheiro de peixe desse teu quadro enfie embaixo deste meu sacrário. Sigo para a noite. Acendo minha alma e sigo. Não enfie esses dois olhos no retrato. Posso precisar deles. E essa boquinha posso barganhar com viajantes. E o cheiro de peixe pode me alimentar o nariz faminto.

OURO AFETIVO

No meu peito uma tela amarela quer tomar o lugar do sol escorrendo metais sorridentes. Ilhas de mim! Como ardem por teus tubarões! Tenho dois girassóis nos meus braços, e uma esperança, uma grande esperança, fervendo como café com ouro no horizonte para os lábios da nossa manhã marinha.

TECIDO DE AMOR TECENDO

Quando tu vieste, vaporosa como os peixes longos, diferente, com essa guitarra que, amorosa, assemelha um ser que muito sente; Quando vieste, mascando bem forte esse chicle mole, "beat"/ácido, irreverente o seu canto à sorte, tom desafinando, quase pávido; Quando vieste insone, toda em preto, ao meu sonho-em-vida meio surdo, o teu mito, Morta, foi rasgando, mostrando que o palco é quase tudo.

MINHA SINA COM PRESAS DE MARFIM

Há elefantes-escribas na sala Sobre trombas de letras Povoando o vinho das frases. Todos fingem Que leem estas linhas, Mirando meu marfim, A esperar mais  Do que minha sina pode dar.

DE MEDO E PÁSSARO

Um pássaro fugiu. Levou pacotes de vento com cheiro. Deixou arapuca com pontas de fogo. No céu, asas com carvão. Um pássaro fugiu. Levou liberdade com gemas. Deixou coração com açúcar. Predomínio de mãos em folhas. Um pássaro foge todas as manhãs. As mãos que os libertam ganham noites. O homem que sou é asas com seiva E escorre líquido com  palavras.

DEBAIXO DO CIPRESTE

Há lances de colostro No fogo que alastras Sem fim Dos lábios Faz renascimentos Ao sul de teus beijos Dilatados verbos De veias infladas Se exibem Ao escrever-te E do orvalho Entre tuas linhas Verbal dilúvio Dá poesias roxas