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UM POETA TAMBÉM

Um poeta também se vende em troca de uma aranha que teça fios de vida em café livro sofá ou em troca de um país melhor de uma cidade ideal sem cabelo em rochas sem azedas calabresas mulheres metálicas sem aceboladas cabalas com qualificadas coisas praças cultura, cortina, ventilador, ar condicionado, mormente, onde outro poeta se compra .

CHAMADO ARREMEDADO

Assim meu mundo caminha nas arestas Cheio de extensões fraudulentas do ser: Cópia de algum outro que se imagina original A montar o arremedo de si abaixo do título.

EXCESSOS SEM CORPO

Há excessos de Deus-Sabe. Há medo de não ter pedra Que abra a casa dos bons Que em altura se atesta. Pastores flagram ovelhas, Monges entopem cadeias, Sacerdotisas enganando, Ambições fazendo a feira. Temos que criar valores No corpo a partir daí Dar carne sã como for A inéditos princípios.

VÊS

Vês como molham-me teus olhos raivosos? Me afogam e transfundem e resfolego... Que eles soterrem-me e me irisem...

UM DIA ME MATEI, ENTENDE?

Um dia em que um amigo morreu no ajeitar-se às pedras, uma amiga o criticou, dizendo: suicidou. Um fraco. Merece pena, não é como você. E deitou sobre mim uivando um gozo provisório... Então, eu me matei, depois de lhe deixar o meu orgasmo. Porque para um homem se matar tem de ter em seus olhos o fogo da Fênix, em sua boca o hálito de Cérbero, em suas orelhas o segredo da Esfinge, em seu pescoço a dureza dos Titãs, e desafiar os deuses como Prometeu, para enfim chegar ao esquecimento de muitos com os quais até se deu. Me matei e ninguém me impediu. Porque a decisão é solitária. Quando a gente quer, quer. Foi assim: escureceu-se o palco. O trem vinha ao longe. Ainda olhei pra trás a procura de um acaso. Quem sabe de uma mão eterna. Só um rato enorme ultrapassava a ponte.

POEMA MERGULHADO NO AMIGO

Passa o letreiro. O corvo só é ruim Sem filme de terror americano. Há escuro em não ver-te, Melhor amigo, de preto, Mas é que tu partes Sem dar-me aviso Ou amuleto. O letreiro passa. Como farei pra me enxergar? Se quando vivo Me alegravas Com teus xingamentos E piadas de amor lascivo? Amigo, como escreverei Sem a troca do sonho? Como remarei sozinho Neste barco bisonho? Ficou tão grande esse mar. Ficou tão alto  o barulho das ondas.