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DESPELANDO O SER-PELE

(poema de 2011) Quero tirar-te Dos meus ouvidos. Por isso estas orelhas-toco. Quero tirar-te do meu juízo. Por isso o poema Me estoura o oco. Quero tirar-te Do bem-olhado. Por isso a íris que furo agora... Sou violão em desfalque? Quero tirar-te Da minha pauta. Da pele quero despelar-te. Por isso os ossos Que intimidam. Quero tirar-te da minha boca, Por isso fechei-a com a fome. ...Mas como esquecer o pleno Pensamento onde estou Se tenho um falso conceito Onde uma idéia morou?

SEU OMBRO

Seu ombro tangido aos ferventes Magros deuses sem afagos. Seu rosto - lança desfechada No alvo das dormentes águas. Seu corpo em finas teias, Preso nas garras do relógio, Seu corpo estufando areias, Instando barros, escolhos.

BALA PERDIDA

O vento com  pés de amor-bala-perdida. E mais chuva,  encharcando as asas dos pensamentos com fone cinza. Quando fiz este poema não havia celular. Mas o anseio sempre foi um bocado de terra, Onde desenhava aos sete anos No local onde hoje não-é A Associação. Lembro da menina. Ainda a desejo. Tinha um probleminha na orelha. Perdi a chance de mordê-la.

VAMPIROPOEMA

Ontem, quando, estático, Pulei sobre ti, rias De mi'a chama tácita. Quando te amarrei E alisei-te a pele Não era o amor, ainda, Embora entre ele e o desejo, Entre esses dois gêmeos, Muita vez enlouqueço De não saber o imo. Em turvo canto, As unhas deslizei Em tua aorta, Cavando o suficiente Para a plantação da horta Do meu semear canino. De ereta vontade e hálito fino, Risquei em ti ranhuras Com meu pau em chamas Espumando tua derme .

ANJO ATROPELADO POR AVIÃO

O verso-ator as folhas Subindo ao palco-árvore. Dorido orvalho, as portas Do teatro. Bem o musgo musica Atores sob os spots. Que o abscesso rasgue o público Com carnamor de piano vegetal. Que possa haver sentido No depois, se for de peste. Antonin Artaud cutuca o dedão Que exala feito anjo de avião.