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MAIS UM DIA DE ATRAVESSAR

Atravessar o dia e seu jogo, embora as tábuas soltas. Ouvir sobre fé e manteiga e amor na televisão a cabo e jogar. Falar sobre a aderência na frigideira. Memorizar o gesto que precipitou-nos. O rosto da motocicleta que cuspiu na calçada. Num prato de carne seca com fofoca. Com os dedos no torno, o trabalhador amansa. Ao final, vemos a TV chicoteando-o.

EU SOU DOIDO

Está rindo por agora? Você vai ver, eu te lasco, E terei sorte lá fora Cheirando a tenro churrasco. Vou ser como Bora Bora Que só fez som do fodástico. Você vai ver, dor de ouro, Vou ser bom qual mago “chin”: Vou fazer brotar tesouros De solo ao sul de Pequim, Onde fazem mil agouros Por eu me afastar de mim. Vou fazer dez mil sonatas Pra um caminho em Compostela. Por seres Dor, estafada Deidade medieva. ...Eu sou doido? És doída! Mas és dor que o poema envida.

DOCE AMOR CHICOTE FORTE

Doce o seu chicote, nos adoça e salga, a ferida rasga, bem fraqueja os fortes. Eis que olhos tropeça, por cegueiras ter na ilusão que causa penetrando o ser. Nós, do sol servis, ficamos felizes só de exibir-lhe nossas cicatrizes.

COMO SE NÃO

Ele vivia como se não sofresse. Chutava os montes de cinzas quentes. Como se nunca tivesse atravessado O Vulcão da Mágoa. Mordidas em seu coração  Não eram só cócegas. Aquele fluxo anímico  Que viste jorrando em seus pulsos,  Por exemplo, foi por ter amado a culpa Que já está de poucos meses.

LAVEI O ROSTO

Fiquei sempre à beira Do amor respirando. Como óleo na água da Estireno. Tentei ser indelével E de olhar o nunca estar Sair ileso, Qual lousa sem traço, e Aprendi, pois sempre agira Com determinação, Criando mentiras Desde a verdade, Aprendi que o rio Só respira porque o digo, Qual o verso.

FELIZ ANO

Feliz ano novo, medo. Feliz ano novo, cedo Meu verso seco e novo, Fácil não me comovo.