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GOSTO

ela se surpreende com meu gosto por paredes com meu gesto de lamber mesas ela se surpreende com meu hábito de tanger o vento e por estar eu sempre a ajeitar o pescoço das esquinas ela se surpreende porque não sabe que eu sou um poeta que se esforça por não cuspir na cara do que sempre olha no espelho porque não sabe que me pesa escolher entre duas margens desnudando incertezas que tremem de frio quando as exponho nuas diante do abismo ela se surpreende com minha tamanha lentidão no falar um A ela se surpreende com o B que digo em enfado solitário já pensou se ela soubesse do desejo que há no D que grito? já pensou se ela soubesse que a vejo N dentro das vestes pesadas? ela se surpreende com a braguilha que abro carnívora ela na certa quereria que eu orasse em vez de torturar papéis mas ela me deixou aqui à vontade na beira do Sol e quando a Lua passa não consigo desviar os olhos

NÃO PENSAR PENSANDO

Embora em mim não penses, O não-pensar é pensar, Só que negativamente, Sabendo interpretar. O que a gente desmente A verdade faz brotar. Te fazes Deusa somente Por eu não te acreditar Ao meu modo inexistente.

2000 ANOS ANTES EM OZ

4 minutos antes eles eram avisados da decretação do corte fatal sobre seus pescoços eram avisados da Portaria que dava poder ao governo 4 minutos antes de pena capital eram avisados pelos mortos de alma avisados por telefone mas como José não havia pago a conta telefônica houve dois cortes

QUEM SE AVEXA COME CRU

Quem se avexa come cru, quem arranha o verbo adoece, na retina estricnina delírios dá e enlouquece. Quem vem da noite amanhece,  tem a sintaxe profunda, pra quem o lê dá uma peste do redigir oriunda. Quem quiser segui-lo um pouco,  fadado ao ranger de dentes estará, em verbo louco. E, insistindo o inocente  No noturno poeta mouco Virará em corvo doente.

DIÁLOGO COM LÉO

Ao fim, a morte veio  Devagar. Talvez Uma poesia  Te encante no ar. Ou aquelas gueixas  De sampa f açam-te  Uma ponte sobre o rio Do ontem Para alguma arcádia  Ou pasárgada pastoril. Ou aquele filho Natimorto em abril Um mito reconstitua Às tuas naus verbais. Ou aquela moça irmã da outra Trance umas asas colossais De Ícaro para ti, a  que voes ao mar Das amenidades jovens. E ainda aquela, aquela, Lembras dela? Que sorria sem verdade,  Sorria feito a morte Na escuridão da tarde, E do quarto, ao corte Do amor-canção... E que algumas poesias Dos amigos, nós, não melhores Que teus versos tristes Sejam ressurrectas por aí.  Quero que tenhas nesse lado (um lado inventado pelo amor), Onde todo pó é alma-estrela, Bastante poesia pra comer. Dizem que os poetas têm Estômago próprio e verbal... Aqui, mil olhos botam espanto Nos poemas que deixaste Por nascer. Tentamos ainda Um desfibrilador de alma Para o ser de tuas ...

FERVURA

O amor é sua própria fervura e um jeito de acenar ao centro que fora se torna ou nunca faz, é como ousar temperos com aumento de gosto de um sempre falaz Você pensa num rosto e ensolara, você abarca reinos, e se afoga bem dentro em si, de um jeito vasto no sol que ao peito explodirá Ficamos sem poder andar, a fritar-nos, a fritá-lo sem saber um fio