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MEIAS NOS OLHOS DO AMOR

A febre a trinta e nove graus. Teu corpo entregue. A fome. Não fosse a alma sem blusa. E alguém que disse: Cara, cê tá mal Nem terias notado Apesar das meias nos olhos. E o cais estava calmo. Os navios eram escuros. As ondas balançavam os céus. Os armazéns perfumávamos de amor.

UM ROSTO TÃO ....

Um rosto tão.... Sublime,  dentre outros adjetivos, apesar do caminho  seguido nas linhas do pescoço a partir de sua luta com manhãs Quanto a alguns aspectos importantes, tinha sua face a essência de um sonho, como um astro-luz de concha atávica, imitando uma pérola de olhos casados na escrita da pele do poema azul Com Estilo algum Poeta alcança? Por certo surpreendeu-a no espelho a soprar fórmulas as velhas bolhas no rosto de vidro com marcas alheias

MILHÕES DE ALMAS PARA ALIMENTAR

Milhões de pessoas chegam à cidade. São milhões de almas para enlatar. As máquinas esquentam seus gases. A cidade a mastigar. O povo foge pros barrancos. À espreita, engrenagens antigas de relógio. São dentes n(ânus)tecnológicos. Os cérebros são juntados aos traseiros. Implacável, o anencéfalo garçom sorri. Quer a gorjeta inescapável do desejo vão. A mesa é preparada com tripas de anseios. Para os milhões que chegam à cidade Não há sapatos de concreto suficientes.

O QUE RESTA

O que resta? a dor partiu No nunca-sempre ao ser-outro? O que resta? a povoou Tremores de frágil potro? O que resta? fez do choro Boca mole com arroto. Por aí vozes sobrantes Dão-lhe ar sonso e maroto. Só lhe resta um mito hiante De um poemicida absorto Numa palavra atingida Retalhada em versos soltos.

GOSTO

ela se surpreende com meu gosto por paredes com meu gesto de lamber mesas ela se surpreende com meu hábito de tanger o vento e por estar eu sempre a ajeitar o pescoço das esquinas ela se surpreende porque não sabe que eu sou um poeta que se esforça por não cuspir na cara do que sempre olha no espelho porque não sabe que me pesa escolher entre duas margens desnudando incertezas que tremem de frio quando as exponho nuas diante do abismo ela se surpreende com minha tamanha lentidão no falar um A ela se surpreende com o B que digo em enfado solitário já pensou se ela soubesse do desejo que há no D que grito? já pensou se ela soubesse que a vejo N dentro das vestes pesadas? ela se surpreende com a braguilha que abro carnívora ela na certa quereria que eu orasse em vez de torturar papéis mas ela me deixou aqui à vontade na beira do Sol e quando a Lua passa não consigo desviar os olhos

NÃO PENSAR PENSANDO

Embora em mim não penses, O não-pensar é pensar, Só que negativamente, Sabendo interpretar. O que a gente desmente A verdade faz brotar. Te fazes Deusa somente Por eu não te acreditar Ao meu modo inexistente.

2000 ANOS ANTES EM OZ

4 minutos antes eles eram avisados da decretação do corte fatal sobre seus pescoços eram avisados da Portaria que dava poder ao governo 4 minutos antes de pena capital eram avisados pelos mortos de alma avisados por telefone mas como José não havia pago a conta telefônica houve dois cortes