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Inexistência do Unicórnio

Como esquecer teu cérebro maculado
os pensamentos dos teus ossos
teus olhos de açafrão falso
teu pescoço de cebolinha marinha
as fezes de tuas frases exibidas
as figuras de teus dedos ridentes
os hieróglifos de tua árvore cifrada

Como esquecer o buraco de teus avatares
as algas de teus mares arcaicos
teu andar de medusa decapitada
tua fome e inocência infame 
tuas terras abandonadas
teus carros sem freio
tuas casas afogadas
tuas respirações gélidas
teus cemitérios com sobrancelhas
teus odores de pântanos

Quero esquecer teus corvos
o amante do qual devoraste o fígado
as pólvoras de teus braços fracos
as garras de teu passado sem estômago
teus cabelos mutantes
o comércio de teu sexo estourado 

Quero esquecer teus espelhos
navegando neles com meu sangue
a que sintas teu envelhecimento precoce
de górgona pretérita

Quero esquecer as matas de tuas junções
as tuas abluções no rio da vaidade
os teus joelhos quebradiços
não possuis mais a minha Fênix

Eu escrevo
escrevo a inexistência do teu unicórnio

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É TARDE E ESTOU DENTRO

Domingo, um dia de algum abril É tarde e estou dentro de mim e de um ônibus, falo alto por fora num silêncio por dentro, bem atrás, de onde o cheiro reverbera, rodeada de uma porção de moscas humanas, de uma porção de coisas, uma mendiga entre sacos de plástico sorri sem nariz. . Uma outra mendiga finge ser madame, com um poodle de papel francês: caniche, com latido em bolhas, do imaginário desfiado em sacos plásticos de mercado. No lado esquerdo do ônibus, um ruela zé cospe nela seu cérebro podrelíquido. . Quando desço, desce a consciência comigo, caminha comigo desde há muito, a me ensinar que o excesso de perfume pode esconder uma alma empoçada. e vice-versa, ou quase.

O CURSO DO RIO

Sei que o rio deve seguir seu curso. Mas preciso descansar entre as pedras correntes, As pedras cristalinas de seus olhos. Gostarias, sei, que eu movesse para ti Diamantes com lábios, algo assim. Mas quero-te foder a toda hora Com meus instintos de pedreira em sêmen.

PERTO E LONGE SEM TI

Estar longe de ti somente um dia É muito, mas começo para ter-me. Estar perto de mim a eternidade Desequilibra a alma, se esquecer-me. Estar? dificuldade que me afia. Ser já é em dúvidas quedar-me. Vigio na intenção de não perder-me. É te largar um modo de encontrar-me? Voltar? Não posso. Está passando o tempo. Só não sei onde, sei que é mais destarte. Se o tempo pára, sei que paro em ti, Amando ausente, mesmo a festejar-te. Sim, bem-amada, deixa o ser chorar-te. Cruze por terras muito, embora tarde. Estar perto de mim a eternidade, Sem ti, é como estar longe da Arte.