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NO CAMINHO DO COLÉGIO JÚLIO

Até o colégio um caminho inóspito. Havia crocodilos. Conhecia a sombra de um. Olhava pra trás não tinha ninguém. Olhava pra frente ninguém também. O jacaré de papo amarelo então saía. E ficávamos a papear sobre pernas grossas. No caminho, passavam pernas de todo tipo. Vez ou outra, uma fêmea apertada no mato. Ouvíamos o esguicho sem cano típico. Eu, excitado, pedia um tempo ao jacaré. Era um tempo de eu ser gênio sem lâmpada.

NÃO HÁ AINDA

Não há coração ainda. Ele está se formando. Um ponteiro vai girando. Há um almoço nu esfriando. Só haverá coração quando a carne se entender com os ossos da alma. No baile das palavras, o tempo é cardíaco.

UM ÍCONE

Naquela escola, próxima à Prixel, abriram o notebook.  De dentro,  o traço direito, defendendo o rosto. Baixou o traço esquerdo, cobrindo a pseudo-virilha. Quebraram-lhe os dados, o aço, envenenaram-lhe a excre/mente virtual, tudo que em si era soft/hard. Ergueu o braço direito, ajeitando os pseudo-dedos que ele achava verdadeiros, como todos nós. Baixou o braço esquerdo, sinalizando aos ícones-irmãos. Foi quando viu a tela. E fragmentos de metal no lixo.

AMADEIRADO

Há tanto tempo grito desta caixa de madeira forçando as tábuas de um dia inteiro Grito desta caixa de sólidas paredes de jacarandá um dia inteiro Desta caixa de mundo onde me debato arranhando o espelho onde se mira o som do eu Desta caixa onde me agito desde que carregaram meu corpo de um útero quente grito amadeirado

O TORTURADOR

Vou lhes contar uma história antiga. Enquanto a química dos alimentos se redemoinham em seus estômagos.  Era uma vez. Não. A vez é agora. Vocês sabem que foram tirados dos crânios aqueles cheirosos cabelos para rechear travesseiros, não sabem? Quando foram tirados, o torturador nunca iria imaginar que dentre eles estavam outros. Nunca imaginaria que entre eles estavam fios de cabelo de um menino de suas relações. Aquele seu filho, nórdico puro, que desapareceu entre judeus num campo perto dali, na fuzilaria do inverno de 39, tinha cabelos de sol nórdico, e, sim, eram seus cabelos que enchiam aquele travesseiro que seu pai usava, quentinho. A pele do filho estava também esticada em sua alcova: pele ariana filtrando a luz do abajur na cabeceira da cama. Branquinha. Antes de dormir, tinha o costume de enfiar agulhas, sadicamente, no abajur, pensando ser de uma judia pela qual seu coração se rendera, uma adorável puta, melhor que sua pudica mãe, no entanto.  Também, judiado pela ...

15.500 DEPOIS DE ZANZALÁ

Coça os olhos, após acordar com dor no supercondutor, comichão nos fusos. Acha as chinelas de amianto e dirige-se ao banheiro. Cheio de xixi? Ou somente sensação elétrica? Ou reflexos da teoria do campo magnético nas partículas XYZ? Olha o calendário: ano de 15.500 depois de Zanzalá, 05 de maio. Marcou com traficantes do virtual. Deixou de fazer coisas importantes por causa disso. Estava fazendo estudos para um salto androideano, ligando o inconsciente das criaturas artificiais aos mitos antigos. Seus pensamentos criativos eram captados pela Central? Imediatamente, chegam os agentes do governo robótico e trocam seus chips de fibra de carbono. Mas mesmo pinças precisas não removem seu percentual de autonomia. Os outros andróides sequer suspeitavam de sua genialidade, de seu desejo oculto de ser qual os humanos que existiam na Terra em 2000 d.C. No banheiro que construíra para si simulava os hábitos humanos e aumentava seu percentual de inteligência (i)lógica, aperfeiçoando as cagadas. ...