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O TORTURADOR

Vou lhes contar uma história antiga. Enquanto a química dos alimentos se redemoinham em seus estômagos. 
Era uma vez. Não. A vez é agora.
Vocês sabem que foram tirados dos crânios aqueles cheirosos cabelos para rechear travesseiros, não sabem?
Quando foram tirados, o torturador nunca iria imaginar que dentre eles estavam outros.
Nunca imaginaria que entre eles estavam fios de cabelo de um menino de suas relações.
Aquele seu filho, nórdico puro, que desapareceu entre judeus num campo perto dali, na fuzilaria do inverno de 39, tinha cabelos de sol nórdico, e, sim, eram seus cabelos que enchiam aquele travesseiro que seu pai usava, quentinho.
A pele do filho estava também esticada em sua alcova: pele ariana filtrando a luz do abajur na cabeceira da cama. Branquinha.
Antes de dormir, tinha o costume de enfiar agulhas, sadicamente, no abajur, pensando ser de uma judia pela qual seu coração se rendera, uma adorável puta, melhor que sua pudica mãe, no entanto. 
Também, judiado pela insanidade, socava seiscentos e sessenta e seis vezes o travesseiro, imaginando serem os cabelos de judeus. Quando o travesseiro rasgava, pegava um tufo e brincava, simulando um bigode, parecido com o de um judeu, pai de uma puta pela qual se apaixonara. Gostava do cheiro dos cabelos.

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