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MERGULHANDO NUM PÁSSARO

Minha mãe pedia para prestar atenção. E eu prestava atenção. Uma formiga no chão ferroava a minha intenção. Uma flor balançando abria -me o portão. Um caracol subindo a escada dava-me bolha nos pés. Meu pai pedia para prestar atenção. E eu prestava atenção. Um cordel de folhas amarelas balançando ao vento. Uma mulher de pensamentos dilacerados. Uma menina mergulhando num pássaro. Um bebê se maquiando com pétalas de ar. Eu prestava atenção. Precisava atuar com os olhos. Na cabeça, fui coligindo canções. Não canções criadas por homens. Mas as canções criadas por árvores caídas. As canções contidas no borbulhar das valas. Eu prestava atenção. Hoje levo a cada palco o som das árvores em mim. No som das árvores caídas há muita esperança. Nasce o ritmo inesperado com raízes terrosas. Nascem belezas com pés de um seio só quando jogo a voz .

ZUMBI, HERÓI

Vinde a mim, Grande Orixá, Não me faça ouvidos moucos, De um guerreiro sem igual Quero eu falar um pouco. Dá-me então verve ligeira Mas que atinja como um soco. Quero falar de Zumbi, Sobrinho de Ganga-Zumba, Líder que deixou um nome Que ainda hoje retumba, E para enterrar seus feitos, Não há nesta terra tumba. A mancha da escravidão Grassava neste país, Tratavam como animal O povo negro. Infeliz, Por estar longe da pátria, Chorava feito petiz. A raça negra sofreu Mas jamais se entregou, Foi vítima de maus-tratos E com seu sangue ajudou O conforto do reinado, Que muito isso explorou. Assim se manchou a história Deste brasileiro assento, Igualando a escravatura Com o período sangrento Da militar ditadura, Dois execráveis momentos. Mas voltando ao assunto Do bravo herói que falei, Ele nasceu em um tempo Que o fez fora da lei Para o opressor mas seu povo O fez honorável rei. Nasceu Zumbi dos Palmares No Brasil Colonial, Sendo o Estado de Alagoas A sua terra natal, E o Quilombo dos Palmares...

NO LAVRAR DO NÓ

Dou um nó, escondo a ponta, quero ver você achar, Segredo bom não se conta, só se espalha no lavrar. Dou um nó, jogo, m'escondo, quero ver você pegar, Como sou só de palavra, m'esconder é palavr(e)ar. Pois se eu não tampar a ponta você pode despontar, E se achar ponta de lança, daqui a pouco paxá. Além do mais essa ponta traz ponteio despontante; Embora dissonantando soe o som bem consonante. Assim, enterro essa ponta na ponte de deslembrar, E se atravessar a ponte, cê não tem como voltar.

HOJE PROÍBEM O ARROTO DE AMANHÃ

Será que um dia proibirão a segunda lei que há nas prisões, e todas as leis de fome serão revogadas em nome  das bocas virgens? Em nome das quais os tais-mais com seus mestres de artigos e mais artimanhas legais proíbem a simplicidade das palmadas cardeais mas legalizam o roubo das posses patrimoniais, inclusive das mulheres? Mas por agora câmaras aprovam leis proibindo o arroto nas mesas o peido nas calçadas e as palmadas (inclusive as dos médicos nos bebês???) O que posso dizer-te ou dizer-me é que sempre têm eleições e os cães e macacos se acham sabedores da vida ossuda e bananosa...