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ÓRBITAS EM MEIO

Vários olhos cegos nesta Data-do-Papaizão. Jorram anseios no Iraque do Cidadão Com Filhos. Quem responderá perguntas sem lábios? Olhos de vazio portam desespero e projéteis, Rodam a chave no buraco dos morros De Lugar-Algum para Nenhum-Lugar. O cão-filho destroça  Uma menina abandonada Com pontas de pneus incendiados. Lembrando árvores de escuridão, nos perdemos Em caminhos com cinderelas golpistas.  Há muito somos sufocados sob sacos plásticos, E os homens continuam tendo esperanças Embora sonhos sejam interrompidos Por pedidos de identificação.

LUZ DO MEU NATAL

Logo o dia de Natal Chegará, rindo e sem pressa. Virá andando, normal, Longe da minha travessa. Os mais ricos salafrários Esperando a ocasião Comprarão presentes caros Às crianças do salão. Sempre tem bons milionários que darão de coração presentes aos desprezados pelo sistema fujão. Haverá pobres também que embora sem dinheiro farão pelos outros pobres o que lhes fez Deus primeiro. Pensarão num bom menino Ao longe, irradiando paz. Sem saberem que está perto Desde os tempos de meus pais. Brinca com a minha cadela, Rasga o meu bom sofá, E esquece as coisas sérias No que vive a maquinar. Ontem subiu no telhado. Dei-lhe bronca, ele sorriu. E no seguinte minuto Voltou, caiu, se feriu.... Hoje, viu menina bela, Sem saia pra levantar; Então, entregou a ela Seu pipi pra segurar. Esse menino Jesus Foi Pessoa que me deu. E no Natal dá-me choques, Eletrocutando o eu.

SOB URNAS

Eleições começam. Em Cubatão faz tempo incrível. Minto. Em mim há entronizações de Pessoa. Penso numa paisagem com pai, mãe, e irmãs. Penso em três grandes amigos: UM, DOIS E TRÊS. Penso em outros grandes amigos: lista infindável. Se é infindável, por que comecei com três? Depois eu me respondo, pois eis que está chegando. Todos riem, se abraçam, pegam crianças no colo. Mesmo em Cubatão isto é incrível. Em casa há uma árvore modesta. Debaixo dela haverá presentes sob luz piscante. Mas, antes, há que regateá-los nas urnas. Penso em três desejos. Depois, em milhões De desejos que se realizarão no pensá-los. Mas a alma está enorme com um santinho de OZ.

AGORA CAIO E PENSO

Agora, é tarde. Mancha o café? Do que falamos? Não deu, nené? Não deu mais pé. Apenas pó Do que largaste Aqui, sem dó. Agora, penso: Se voltássemos? Prevíssemos? Nos vestíssemos? Estendêssemos... Mas... Voltarmos A ver sinais? Agora, caio. Tenho, em mim, O verbo atroz. O que faço? Foz?

TEOR EXPLOSIVO DE UMA AMIZADE

Quando conversaram, Não notaram o rumo Da amizade aprisionante E fizeram dela bomba errante. Quando a amizade cresceu, Entreabrindo a flor excelsa, Um cachorro viram na rua E imergiram-no, cúmplices, Num caos de gasolina. Assim, o teor explosivo  de uma amizade entre vermes. O cachorro era um homem?

PROCURA

Rios plenos e escuros de tragédias e lixos abrem os ouvidos às árvores oblíquas de deuses mortos, antigos. Inadmissíveis teses jorram ausências de vida. José procura a filha, entre cotonetes com algas, nos ouvidos do deus que sobrou na ressaca da última guerra urbana.

BANGO BENGO

Fui ao Bar do Bango, comprei pão e pato. Quando acordei, era um sonho! Saco! Fui ao Bar do Bengo, comprei pato e pão. Outro sonho. Acordo e estou eu doidão. Durmo nesta cidade, onde o Bar do Bango é torto, pertinho do Bar do Bengo, e um sonho é dentro do outro.