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OS ANJOS PEGAM SUAS TROUXAS

Os anjos pegam suas trouxas. Não têm mais esperança. Estão em fuga. Não são mais os mesmos. Aquele jeito puro deles não existe mais. Aquele sorriso de cada anjo ganhou febre. Antes invejavam os homens. Agora invejam o Nada. Se ganhassem o Nada, Mergulhariam sem pensar em nada. O Tudo lhes cansou. Pegam suas trouxas e vão aos piquetes. Quando assaltados de pequena esperança, Pedem jornada eterna menor. Melaram de bosta as asas. E apontam o dedo médio pros homens Que os vêem quando sentam no meio-fio.

SIGO COMO UM SER DE SELVAS

Sacudo minha juba Como leo antigo Estico o pescoço De meu ser selvagem. Blasfemo da chuva Que dá fuga à caça. Pouco me adianto Com a vida às traças. Só as minhas moscas Me adoram, me entendem. Não há virgens selvas. Todas em ruínas. Vão-se as memórias De outros campos férteis. As patas me doem Como as lembranças Dos risos de Leocádia. Os dentes tremem nas gengivas. Meu rugido espanta menos Que minha amarga alma Claudicante a cada verso.

QUESTÃO DE MEMÓRIA

Acontece no ônibus, vez em quando. Abro, então, a memória para que entre Um avô espanhol, de Lojas, Da região da Andaluzia Me compra sequilhos, Ao centro da cidade de Registro, Onde também um peixeiro passa, Junto duma mulher com chá quente nos bolsos. Marília me aguarda à porta do banheiro. Dirceu fugiu com uma cabra E o estranho é que estou Ao lado de um colega falecido. E assim vou por aí, catando visões. Abro mais e estou saltando muros. Valho uns seis milhões de dólares, Por meu braço biônico. Mais gordo e com treze anos. E estaco para o espírito em fogo. E mulheres nuas invadem minha puberdade. Com seios em riste de auréolas molhadas. Há um cheiro de eternidade nisso tudo. Embora os pés do tempo disfarcem As varizes nas rodas do ônibus inflam.

A AFIADA FÁBULA

Há muito estou sem sangue que preste. Desde que vi as cegas apedrejadas. Pudesse matar carrascos com grafite. Entreabro as pétalas das palavras Com letras de abertas vísceras. Do campo de histórias partem apelos.  Lá elas com a cegueira que lhes causamos. Cegamo-las com a afiada fábula das costelas.

RESTART

Tu me acenando de longe. Vou à memória buscar-te. Promessa que fiz pra mim: Inda te encontro na Arte. Finitos sons a morrer. Passa o tempo sem esforço. Eis que ouço meu rascante Atritar de ruga e osso. Miolos na sopa, estou velho, Quase me esqueço ao chamar-te. Tu me imploras da tela E dou-te a memória em restart.