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POEMA DE CARNE DIVIDIDA

Não escrevo só pra minha vida. Nem só pra sua nem pra de ninguém. Eu escrevo sim para as muitas almas Que Grande Pessoa disse que o ser tem. Guardo no poema coisas que não vêm E que, quando chegam, estão derretidas Por um não-querer, não-chegar, não ter, Coisas de mil almas, no ser divididas. Como posso dar-te uma definição Se dá-me o poema a carne dividida? Se a cada hora dou contradição? As minhas verdades adrede fingidas Existem no ser como condição De chegar ao cerne da (in)sincera vida.

MINHALMA DE FOCOS

Minha pele de tábuas,  minha alma de focos. Desde o nascimento  rangem os meus átomos. Nasci teatro,  deuses mil invoco, Sendo o mais certo  um que chamo Dúvida. Há pregos em ferrugem  no meu verbo. Há tábuas dissolvendo  em minha testa. Alguma coisa aconteceu. E nem dei por mim. Embora soltas,  pausas me fortalecem. Sou feito de tábuas de silêncio. Afeito desde muito  à música do teatro. Há tempos tive feição. Há tempos fui bonito,  como um retrato belo  de alguém. Porém, exposto à luz,  fui desvirando a roupa.

JAKE LABRADOR

Você não quer descansar? - ...... Já salvaste mais de mil. Senta. -...... Pelo menos, aceita este pão. - .....  (Sonho com Jake, concentrado Em achar os vivos. Ele, que fora abandonado Entre os mortos aos dez meses. Que aprendera nas ruas a ser esperto, Apesar de ser pego várias vezes. Gostava de baganas de chuva, Enroladas no orvalho de folhas. Ele está concentrado. Ouviu alguma coisa. Uma voz ao longe Em meio a escombros. Como ele é rápido! Uma parede vai desabar! Ufa! Escapou. Por pouco. Ele está trazendo um braço. Mas o homem tá vivo! Graças a Deus que o mandou Quando todos tinham ido! Dorme pouco, o sono adia. Acorda e já vai pra luta. Quantos salvará? – Muitos. Quantos deixará? – Muitos. Salvara no World Trade. Servira em New Orleans Após a tempestade Katrina. E era pra ser um condenado Ao abandono das marquises. Era pra ser, mas hoje Só pensa em salvar e vai! Podia estar numa casa rica. Brin...

JU TINHA VINTE E POUCOS

Ju foi tirada da pista. Tinha vinte e poucos anos. Seu pai ainda não sabe. Sua mãe ainda não sabe. Todos que olham seu rosto  Emplastado na avenida dizem: - Que pena! Tão jovem! Mas a dor trabalha em outro canto. Em outro canto está prestes a desaguar. Longe da avenida a casa de Juliana. Seus pais almoçam longe. Estão felizes longe. Não entendem ainda a dor que se prepara. A dor estará perto demais. Apertará os corações. Que despejarão oceanos com remoinhos. Mas por enquanto almoçam. Não entendem o fluxo preparando o dentro. Vão saber que ela tentou fugir com Geraldinho, Vão saber que não adiantou contrariar o namoro Em nome da rigidez de velhos e (in)seguros princípios, Vão saber que foi errado tratá-la com desrespeito. Quem agora iria passear com a cachorrinha de manhã Pra ela fazer xixi no jardim do vereador ladrão?

MISTÉRIO QUE ESPANTA

Quando o Rio sofreu um desvio pra que não houvesse enchentes Será que sentiu uma dor na coluna? O esqueleto do rio curvou apenas alguns graus Um Rio entortado, uma estátua sem cabeça, como nós, vítimas do tempo Quando a gente se dispõe a pensar nisso, esse mistério, apesar de todo sangue que vertemos ao entortar as coisas

ESPELHO-TE NOS CALHAUS

Não adianta fingir claros, Pois sou do escurecer. Um tal chora frente ao espelho Por ser eu a encanecer. Esse sofrer espelhante Como de alguém que se larga Ao espaço reflexivo Gera espinhos nas ilhargas. Embaixo das ondas tento Ser além do bem, do mal, Dando infância ao velho lento. E ao te ver bela, real, Sei que tenho sorte. Sento E te espelho nos calhaus.