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ELES OS GORILAS SOBREVIVERAM

Eles sobreviveram, guardaram como recordação as tenazes para dedos, ocultaram em cima do guarda-roupa a guilhotina portátil, a forca automática, a metralhadora oculta num disfarçado guarda-chuva-e-sol. Saem de manhã como o cachorrinho azul, depois, à tarde, voltam para suas casas, beijam faces familiares, tomam café com pão-de-queijo, talvez, ou tomem os netinhos no colo, emocionados com as possibilidades de seus futuros, querendo viver mais uns doze anos para vê-los cursando Direito ou Medicina ou Odontologia ou comendo rabos de saia debaixo de pontes e edredons sob os olhares de seus Capitães-do-Mato. Como são belos esses velhinhos com caras de céu e corpos de jardim de plástico! Como são frágeis seus passos sem culpa! Como são saúdaveis com suas refeições de horas certas! Estão uns anos a mais, quase morrendo, e esperam mais doze, em Deus pela Pátria e Liberdade, devorando muito ferro e zinco da Nova Culinária. Vez em quando, um desses velhos apanha uma cadeira daquelas bem s...

NÃO POSSO SALVAR O DIA

Não posso salvar o dia. Ele já nasceu crucificado. Não posso salvá-lo. Seu sangue sobre nós. Até queria. Mas está escrito nas peles como estigma. Bem no centro dos seres. Doendo como um osso gritante. Escangalho suas costas. Acendo com meu escárnio seu caule. Mordo suas folhas com meu cinismo. Não posso, não quero, queria.

O TEMPO É TEU?

Pode pisar, o tempo é teu, Não esqueças que embaixo, Embora o espaço/tempo dobre E nos confronte, Senhora, Faço palavras-circunferência. Quando estiveres sem ar em cima Não esqueças a força que de teus olhos Senhora Pus ao canto dos meus óculos como estepe E só há sofrimento no poema Quando ele se joga.

O FATO SUPREMO

Veio. O fogo perto ainda. A dor de suas mãos Caía em lindas chuvas, E todos lhe liam O desejo, fé, mergulhos Com a beleza de suas vinhas. Veio. Para os fatos, era O Fato. Sob a marquise, na moitinha, O cheiro da Suma Chuva, Longe do inquieto anseio, Parecia... Deus no espelho. A verdade é que ele veio a essa cidade velha. Quem era? O estrago Que me espelha, Escuro lago, seco Seio.

AMORÁVEL POETA SAIDO

O poeta saiu do centro: dura figura. Saiu do cerne, esquecido  e cruzou por fora. E lhe dariam um cargo  em comissão no Inferno  por ingênuos sonhos parricidas. Mas esses sonhos  há muito alimentavam  corvos de ironia... Assim: Voltou ao início das coisas.  Flexível.  Amoleceu, amorável.