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MERGULHO NO TEMPO E NO RIO

Não se pode mergulhar duas vezes no mesmo rio, apesar do rio me parecer sempre o mesmo, com a mesma margem e suas moitas, e as mesmas árvores ao longe. A mesma família mora ali há anos, minha avó recebia os aluguéis quando era dona da casa onde mora a família. Depois meu avô e minha avó morreram. E o rio continuou ali, um pouco mais sujo, afogando alguns de vez em quando sem querer, porque um rio geralmente é muito bondoso. O mar é que tem seus rompantes, ora manso, ora bravo. Mas como dizia, duas vezes não se mergulha. Até porque o tempo passa e se veste de hoje em qualquer espaço onde estacione. A família mora ali há anos, mas já esta afetada pela urbana face. Traficantes possuem uma boca perto. Prostitutas gostam de parar frente ao rio de madrugada e ofertar-lhe os pés, quando muito as coxas. É quando o rio diz: "ai, que felicidade!" Não se pode mergulhar duas vezes no mesmo rio.

ELA DORME ELE OLHA

Ele olha pra ela que dorme no sofá encolhida, parece calma, e respira em harmonia com a rede lá fora que um vento safado balança. Ele pega a mão dela, ela finge que não sente as mãos calosas dele, finge que não ouve o coração dele, finge que não sente  o quanto ele esconde as palavras como pedras colecionadas  para a beira da água do amor. Lembra da primeira dança em que ela de olhos fechados imitava uma nuvem carregada ou melhor um girassol romântico e mais longe lembra quando no balanço ela o cobria com celestes raios, lançados do calor de suas retinas. Ela dorme tão quieta que chega a ouvir os rios do entorno do éden, embora só ela saiba que não dorme, pois assim pode melhor senti-lo  em toda entrega do ser, frágil só pra ela, forte só pra ela.

PONTAS DOS DEDOS

E os jornalistas faziam perguntas suspeitas e os bandidos se regozijavam quando os jornalistas vendidos perguntavam sobre o motivo do verde ser a cor preferida da vegetação ou sobre o motivo da estátua da Justiça pegar a balança com nojo pelas pontinhas dos dedos ou sobre os emancipadores no cume do obelisco Quando o juiz se moveu da cadeira os bandidos tremeram um instante mas fingiram bem a tremida fingiram bem o olhar e o juiz não percebeu o medo e pouco lhe importava isso comparado com crime dos bandidos Tudo estava meio tenso até quando uma folha de papel em branco deslizou sobre o assoalho ajudada pelo ventilador Foi quando a vítima dos bandidos pegou o papel em branco  envenenado de poemas escuros, dobrou em quatro pedacinhos e entregou a cada um de seus quatro filhos, pois ela bem sabia da frequência com que seus filhos iam ao banheiro Tudo estava meio em suspenso e ninguém percebeu o pensamento imperceptível da Justiça querendo largar ...

LÍNGUA DO MEU PENSAR

A língua do meu pensar lambe o que cata o olhar. A língua do meu pensar lambe o que toca ao me ler. A língua do meu pensar lambe os joelhos do canto. A língua do meu pensar lambe a coxa do anseio. A língua do meu pensar lambe o sol a lua o mar. A língua do meu pensar lambe a mente em receio. A língua do meu pensar de lamber mói a lombar da frase mandibular. A língua do meu pensar é o que penso e deduzo para no pó me expressar.

ACHAQUE CHOQUE ROUCO ROCK

U m tem chique a chaque . Outro chuta em choque E checa a guitarra. Um achata a xícara. Outro leão de chácara. Sou um cantor rouco, Mas confie, loque. Rouco também Canta rock.

CACHOEIRAS DE SIGNOS

Incendiara os escuros No braço claro da manhã. De madrugada, andou sobre as águas, com folhas ao pé, em cima da ponte do rio-eu. Subiu pelo papel, a tempo ainda De aperfeiçoar e cultivar letras no forno. Havia tempo para o princípio do canto E de escutar o pé-no-sacro "era uma vez".

ENFIM, SÓS

Hás de ficar velha, e buscarás a mim no retrato oculto em meio aos pingentes. E eu, velho, em remorsos, procurarei Encontrar a ti em velhos presentes . E aquela elegância que plena ostentavas Não dará sinal, nem o tom indócil Que eu te lançava causará mais mal, Tua face bela como a minha: óssea. Lembrarás as guerras que por ti vencia, Lembrarei do quanto nossa voz Alçava em supremas alegrias. E um dia esbarraremos nos faróis De movimentada rodovia, E te direi, ferrado: enfim, sós!