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DE UM TORTO MAS NÃO MORTO

( feito de uma idéia a mim dada por Leonardo Só ) ...Começo este meu relato, Pedindo de adjutório Que não fujam para o mato, Pois estou no meu velório. Sou um defunto com tato E detesto falatório. Daqui, ouço a voz do sogro Para a bunduda empregada, Prometendo apartamento, Uma jóia bem dourada, Ilusão do ano passado, Pru mode vê ela pelada. Ouço meu filho Aderaldo Planejando roubalheira. Desde que era pequeno, Só deu pra fazer besteira. Nunca dei-lhe uma lambada, Então, deu pra bandalheira. Mas que falta de respeito Do meu amigo Joel. Já paquera-me a viúva Com seu papinho de mel. Se inda tivesse na terra, Ele ia para o céu. E meu pai? Chega bebum Chorando que nem a chuva. Derruba minha coroa (Não falo de minha viúva), Grita que nem fosse bruto Picado por cem saúvas. Um mendigo entra e ora, Com reverência tamanha, Que só mesmo o meu cachorro Esse fato não estranha, Nunca esqueceu da ajuda Que dei-lhe numa campanha. Ouço um amigo de infância Meu poema declamando, Esse amigo memoriz...

DOR ÚNICA

Dor única. Não posso dividir.  É só minha, com seus peitos cinzentos. É só minha, com suas curvas em tijolos. Dor única. As sensações são de pedra. Na dor cabem as nuances do reino mineral. Na dor achamos um abismo. Na dor queremos o tato fundamental. O tato sem volúpia. O tato qual de espuma. Na dor, encontramos os olhos desorbitados. Como planetas desabitados.

EXEGESES SOBRE O PÃO

De exegeses sobre a morte do pão caído com o lado da manteiga pra baixo estou farto,  melhor lamber o caldo da noite misturada ao dia e seu fim recomeçado a cada vez que vemos os fatos com mais frequência A vida é dar três passos e parar dizer um verso e continuar até que deitemos de vez segundo meu amigo de versos diverso de outros amigos que tenho que um dia darão dois passos e deitarão a perder

FALAR DESTE MOMENTO

Falar deste momento: o sonho o sofá o cérebro aberto sobre o livro o amor e a morte na panela cozendo e longe xingamentos se ouvem devem ser vozes no navio alheio cantando fantasmagóricos mares há filmes para ver na gaveta não que tenhamos de nos enfiar na gaveta mas há filmes que se assistidos mudam o ser de quem assiste e as falsidades se aproximam nunca viram um ouvido como o meu neste momento a lua lá fora enrugada para o dragão que prefere as manchas do sol almas nos becos das prateleiras há um carinho que vem e vai roçando a chuva desesperada

SEI QUE DECORRE DO PACTO

sei que decorre do pacto este sangue ralo e doce a paisagem que fingi nos olhos o cheiro que criei da ilusão o livro amarelo e com traças melhor digo: deixa as traças a que me façam companhia fico fácil desesperado e romântico sei que é inevitável leva a pedra que comprei de Sísifo as dores que serviram aos poemas os delírios que suguei das nuvens leva a língua que comprei de Íxion o cd do Pink Floyd o último lançamento da Ford que não tenho todo pacto tem suas regras pode levar a musa a rasgada blusa escrito yakusa e boca chiusa sobre minha inexistência sobre a panela preta a frigideira arranhada a xícara quebrada a alma com veias de sangue o corpo aéreo e por último leva o sentido que nunca descobri das coisas evitadas