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ÚNICO QUE TENHO

O unicórnio que tenho no espelho fosco está gordo  não come mais as frases doces nem bebe o que o corpo espreme. Vive olhando a alma do chão com medo da morte um olhar cego como apaixonado por escorpiões. O unicórnio que tenho chamado de Solidão ou de Molibdênio. Tem a mim só. Mas vive de cenho no chão mandando uma ordem: me ame me mate. imagem acima : ANDERS ZORN -  Nosso pão de cada dia

CONCHA ENCONTRADA

Fo i uma concha encontrada. Séculos de história atada. Suspensa foi para a foto Dos dedos do arqueólogo Com cheiro de século em papel. Mas a concha nem aí. Só lhe importava os céus Na voz de um útero antigo.

AMOR SEM GARANTIAS

O amor sem garantias O eterno jeito de ceia O amor e sua azia Uma reta fugidia Uma mole geometria Um bem e um pouco de mal O amor e sua teia Vitamina e som viral Sorriso e bolo de aveia Veia sangrando macia O medo em funda bacia Controlado vinho e sal Descontrolado de frente Arrebatado ou mendaz Livre ou forçosamente Gerando crime serial De dar sentido às sementes Do trigal da alma sem Gogh imagem acima: de   ANDERS ZORN -  A feira em Mora

A QUE ASSIM

A que assim, sem mais, Jamais esqueçamos As coisas do sol, E, amando, selemos Nossos termos Na pele do luar Sós, vozes de montanha, Com amor de cheia Floresta, fímbrias de mares Nos possuam

A PODER DE PALAVRAS

O que somos a poder de palavras? Penhascos além do tapete, Vaidades convexas/cavas. Mesa descomposta por brigas. Isto é Cabral, aquilo é Haroldo. Este é poeta, aquele é bicha. O café sorvido pela glosa Das igrejas fixas. E no entanto se renova O fato úmido na alma tímida De amar o pó das asas Dos anjos caídos