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PENSAR NO QUE SE ESTABELECE

Pensar no carcinoma da pele do mundo, pensar no sangue que faz chouriços brutais, pensar nas religiões que subjugam mulheres, nos homens que no México matam ... moças que sonham com o mês e seu salário, pensar que a guilhotina enferrujou pescoços, pensar que a cadeia codifica leis paralelas, não me deixa com a paz de quem fica ao fresco. ... Pensar que não se pode mais ir à praia e estender a esteira e as almas. Pensar que o hábito de ter juízo, que o hábito de estar tranquilo, que o hábito de vestir o avesso, estão policiados já de manhã. Pensar que a resposta para as coisas depende de soluções coisificadas não suaviza a estrada diante do derrapar do pneu dos fatos, dos tiros de certezas com palavras revestidas de chiclete e festim.

PRA QUE A FILHA NÃO DESANDE

Peixe aquático, fusiforme, ósseo  (vindo de entre nuvens ósseas),  nadadeiras ausentes nos basais ( bases donde? nos ais dos casais?),  escamas de origem dérmica  no tegumento (frise argumentos),  os animais do logos andam à caça do poema graal gutural. O velho poeta também se achaca  com a adolescência de sua filha  tendo em vista sua receita velha:  uma colher de sopa por dia de isolamento casto  para que a filha não desande.   T emos excrescências  na cabeça do poema, não sei por quê. E os pais são os mesmos Id de sempre.

WITT !!! GÁS TEM

Wittgenstein,  um dos mais influentes  filósofos da linguagem  só falava do que sabia. O ser sempre é como a neve é branca. E eu, um escriba fáustico, a boca cheia de marcas de beijos das letras Arial, pensando no  Letracan, perguntando  à linda Witt com quem casei no início do fim dos tempos: - Witt, gás tem! - Não, amor, tem de comprar!

TORTO POEMA A MONTAR-ME

Ah, tédio seria sempre ter um poema para críticos, amigos, e para isso. Então,  o drama me estipula. Torto poema a montar-me circula.

DEVANEIO VARIÁVEL

Num instante, o aloucado Ícaro, n'outro, o alocar de uma minhoca. O sol também terá um sono eterno. Toda estrela o tem, por certo. Mas sempre há uma suave chuva. Vamos ali prum café com uva? Um sorvete? Falar das curvas que comovem todo trem? Num instante, o mato do sátiro. Noutro, ele também. Seu desejo é fechar as ninfas com burca. Num instante, a deus temos, noutro, tememos deus, crença, descrença, mas quando passa o carro sobre nossas cabeças eterniza-se a estrada. Um amigo chora, escarlate, e isso o anoitece. Mesmo cético, creio, na noite que não é minha. Lembro a voz de Omar: "Nessa encruzilhada  do desejo e da necessidade, não deixes nada..." Falou alguma coisa mais.

ASMODEUS, IMPOSIÇÃO AO SOPÉ

Usava Aeshma Daeva camisinha de couro  de tubarão maquiado e masturbava-se com mão alisada em corais. Era um deus natural como um adolescente cheio de hormônios. Detestava salada de algas que serviam na cachoeira do acreditar. Quando os agentes da lei pegaram aquelas meninas no sopé da favela e elas lhes ofereceram aquela coisa preta no meio das almas, exatamente quando cheirávamos o pó das estrelas, como iríamos resolver sem ódio? Quando a gente entrou naquele bar, como escapar de odiar aquele Pai que condenava tudo o mais que não fosse seu falo ausente?Ainda mais quando ele nos olhou querendo converter-nos ao Natal, ao Dia de Reis, com seu cheiro de suor masculino. O remédio foi matá-lo em nós, não por inteiro, pois restos de veda-rosca exalavam no ser/alma enroscado. Aeshma estava conosco e, bêbado como um gambá, vomitou saladas primevas sobre os agentes legais, e, com hálito de águas tranquilas, escorou-se em nós quando saíamos da ilusão.