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A PÃO E MÁGOA DE VERDADES

Quando me atirou no rio, Meu pai queria eu lutasse, Que eu aprendesse o nado, E ferisse ao dar a face, Quando me lançou das pedras E me escondi sob a casa, Queria que eu crescesse, Assim como em Pedras Se Indo, Um filme muito sucinto. Quando me descarregava Acima do seu pescoço, E de lá me atirava No abismo ao sul de Cnossos Era pra que aprendesse Os vôos de antigo Dédalo Na alma do filho intrépido. E das vezes em que fez Rastejar-me na parede Me preparou para Kafka. Quando me deu às mulheres Da Zona do Cais do Porto, Queria que eu aprendesse Com meu pau de rijo estofo Sobre o Teatro da Estrada, Sobre as delícias da Pele E seu orgasmo-em-palavra. Até hoje escrevo em tábuas, Ouvindo-voando e uivando, Principalmente rangendo, Com sede, a pão e mágoa De verdades desfazendo.

LUZES DOIDAS DENTRO (à esposa)

Em teu jeito, Céu de Neve, Deixo imberbes ramalhetes De meu poema de verbo atlético Surge o barco de pau-brasil e afeto   Em meu oceano de coisas pra te dizer Há águas de lirismo e espumas de dor Por tua lua, esposa, faço poemas de peles de lobo Sei, por minhas falhas de pedra, que pequei Bato nas pedras com lençóis de mel e luz Bato nas pedras com semínimas de astros Por você quero ter poemas aos mil E significar e ressignificar-me Recheado de neve cada verso perfura maçãs E claras ânsias tenho entre teus braços Tens olhares a que dou sentidos metafísicos E nos quais me banho de luzes doidas dentro

FOI ASSIM, VÊ SE PEGA...

Foi assim: a vovó de Chapeuzinho namorava um Papa-Figo que era gordo e branquinho e não gostava de fígado por ter nojo do cheirinho. O Papa-Figo sonhava com um banquete supimpa onde se alimentaria do "figo" das figueirinhas de um pomar que inexistia. Ele queria mudar daquela morta cidade onde os outros papa-figos zombavam com crueldade de seu gosto por frutas....... Entendido?

SEM POUPAR ERROS

Lutar sem poupar esquivas. Torcer as palavras vivas. Nunca deixar de banhar-se  no barro de invectivas. Dar verbos  às anêmicas frases. Sempre separar células  contaminadas de certeza verbal. Por isso, escrever  com os olhos a vazarem, humanos de amar . 

AFOGADO DE FINGIR

Ilusão Me serviram ilusão  Com muito sal Pressão alta nas asas Caí sobre o mar ilusório Com sal e sonho  Sobre as têmporas Ilusão, eu sei: Não despenquei  Com sonho e sal Apenas pensei Que despencaria E quase morri afogado Usando o travesseiro Como bóia no mar lençol Quando acordei Bem de manhãzinha

PARAR OLHAR E SEGUIR

Meus ombros cresceram Com sombras de aparo. Castelos caíram. Outros mil subiram. Dormi sobre seios De vento e brisa. Me serviram lendas datadas Sem efeito sobre o pâncreas. Apenas ficou a paciência De parar e olhar e seguir De parar e olhar e seguir...