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NÃO QUERES UM POEMA

Não queres um poema que ame Que seja calmo e musical Me queres pesado Como quando tomo nescau Só me entendes Se eu bebo a manhã Com boca em berro Ou rasgo-te as saias Não me queres silencioso Como defeito de celular, Que eu ainda nem levei Pra consertar, por sinal E eu penso em ti como eras A descer a ladeira, O corpo mexido pelas mãos Dos ventos laterais Os olhos belos como originais estrelas, Despertando espelhos do sono eterno E a silente cadência dos santos teus  Atrás do teu celta vestido longo

BEBI DIVERSOS LUARES

Verdade de poeta é coisa séria, por um lado. Por outro, também apronta cascas de banana para escorregões. Um poeta quer um livro; outro, um jazigo, outro rasga traumas, outro almas (eu gosto). Verdade que bebi os olhos do verso, há muito tempo atrás, numa grande área de barro, e fiquei a partir daí diverso do que eu fora, buscando um poema-paisagem. Bebi os olhos do primeiro verso nas revistas de quadrinhos - primeiro Fantasma, depois Os Sobrinhos... do Donald e do Capitão Mac. Quando veio Mãe Preta já tinha topado no meio do caminho com uma parede de luar. Verdade que jamais serei ponto final .

MUJICA PARA OS OUVIDOS

Aos 77 anos,  o uruguaio José Mujica cultiva flores e hortaliças  que transforma em pássaros verdes. Tem um fusca azul 87. Dispensa empregados. Sempre é visto  nos restaurantes populares. Sabe fazer magia com o dinheiro público . Assim são as atitudes poéticas.

FINGIR VITAL

Fingir a dor universal dói tanto mas eu não corro... E eu não sei pedir socorro Para um fingimento tal... Tudo parece tão normal E se parece que morro É que o verso me é vital...

CAMINHO EM PARADOXO

caminhos claros de repente escuros caminhos duros de repente escarros vasculho fósseis neles me farto fosses óssea poesia jogava-te no mato quanto mais avanço mais quanto menos danço caio caminho em paradoxo adoço doxa que é popular crença e descrença e o prato viro na garganta intensa sem pressa vielas escuras apuram o passo claro na chuva desta época inversa

FRUTO E FLERTE ORELHA E OLHOS

De mente confusa, monto fusas contra dois inermes corpos. O sol tão quente só nos dopa em músicas. O calor é brabo abraço a fera abrupto. O suor é luto farto, som, fruto e flerte, orelha e olhos. A toalha é folha e a folha é bela embora a bula um olhar de bulha. Pego a caneta e risco a falha que me calha e vence.