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PRETENSÃO POR FLORBELA ESPANCA

Meus olhos nadando ante as pétalas Florbelas-de-Eternos-Jardins. Vejo-a no início da semana antiga, alma viçosa, lutando, combatendo, num trabalho de 8 horas. Revejo-a no café, cabelos sujos do pó da cidade arcaica. Escreve num papel, na mesa, num pano, coisas de mágoa. Arrisca. Faz luas com asas de sol, início e fim. Tem os olhos tão vivos. Tão. A vida sempre é nova e velha quando aparece de rosto triste, no livro puído, em cismares . Foi punida com a dor incerta e eu com dez/crenças certas. Nos desencontramos. Eis que vaga um fado e ela me olha de longe, atravessando o tempo, chorando um desencontro irremediável.

MARCA PESSOAL

Um poeta persegue sua marca pessoal como um cão. Vai assim buscando o próprio rabo. Eu nasci curto. Corro mais difícil. Por vezes, revolvo sobre mim. Por vezes, sou asséptico. Por vezes, sou cético, ético, moral. Mas sempre acredito, ao final, Que alcançarei o mistério.... Do que mesmo?

PEDAÇOS DO CORPO DE BRAM STOKER

Quanto aos tremores, são decorrentes da violência do campo de leitura, embora haja quem julgue que o amor de sangue entre os olhos e o papel venha do começo da vinha úmida da paixão, dentro do campo de Adão e Lilith. Um assalto seguido de morte perto do Lorena, um homem bate com o violão no ouvido direito de um sátiro. Em dois minutos o sol está pra lançar seu abraço mais caloroso, um garoto de moto amassa a paz de um poste, diluindo seu velho amarelo de luz amarfanhada no vermelho do Éden, enquanto uma van falsa da EletroPau rouba um prédio inteiro. Um pastor marca um encontro com uma criança num shopping, mostrando as asas em carne do desejo que sempre voa num céu reto que se curva por entre moscas e incisivos de um contemporâneo Vlad Stoker que a primeira leitura plantou entre vivos pedaços do corpo de Deus.

BEIJAR FODER AMOR

Sem dor, como afiar  setenta vezes sete lâminas de afeto? Como confessar  no Templo do Logos/Vida? Sem dor, como sorrir,  cantar, ser feliz? Sem dor,  como navegar no ar  com os mitos? Como remar o verbo  no barco azul  do sol e da lua? Sem dor, como comer,  beijar, foder Amor?

MOSQUITOS MORIBUNDOS AO MAR

Que eu seja miniatura e posto seja em folha orvalhada que voeje ao vento no tempo e que eu seja levado para o mar doce de além do sonho aquele meteoro encostado na alma só Que insetos mosquitos moribundos me guardem até o mar e ao chegar se atirem nas espumas brancas como o lençol da escuridão Que eu seja lido como uma ferida por um menino verde como eu fui com vida eterna e tudo

JÁ FEITO

O poema já foi feito com cordames secos o navio calafetado de medos as velas robustas se rasgam as sereias se despenteiam Ligando a TV veio o azul a conta não foi paga tempo demais no banheiro pilulas para acelerar o metabolismo O mar resta encapelado as espumas com seu bafo de conchas o espelho rezando aos dentes o poema já foi desfeito O vizinho trancado na brisa as chaves no palácio o tempo está moderado o cachorro liberto em fuga a sede o fará voltar em miniatura