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HYDES QUE SOMOS

Depois de ler sobre Kafka Em interior batalha, Na urbana guerra dos tronos Vou, com medo e sem muralha. Não sou de raça escolhida, Sem grana pra smartphone. Meu talento : na axila Meto a mão e sai trombone. Na rua, este templo urbano, Que nos perde e condiciona, Somos baratas expostas. Suas pedras como espelho, Atadas por densos frios Mostram os Hydes que somos.

O ÓDIO TEM QUATRO LETRAS

Somos nesta guerra quatro letras que explodem frases, socos acres bem no verbo que se adianta nas crases. Um corpo sofre no outro, o outro mais quer, quebrado, se no catre há um que vence, é por conta do arrebato. O ódio no amor se trata, o corpo n'alma se plasma, somos do alfabeto a nata. Embora a paz e o pão ázimo, nesta eucaristia quatro letras dão sangue e sarcasmo.

QUASE MEIO

Um passo quase meio Sapato quase feio Pulando quase em baixo Um amor quase cheio Casório quase feito Quase branco e ela vestida De um branco quase preto E um noivo quase em dívida Banquete quase quente Da sogra quase exótica Não fosse a quase ardente Neta quase gótica Ao fim quase começo De um dia quase claro A noiva quas'dispensa O noivo quase raro

FLOR QUE BASTE

Por amar muito este amor que o canto de carne e alma ao fundo do teu ser, e por guardá-lo todo em teus encantos bem mais te amo a me submeter. Eis o milagre dos encantos teus que faz escravos de escravos natos para servir-te mesmo após Morfeu fingir-te a Morte com manhas de gato. Amo-te como um David-Golias, Anão-gigante, corajoso traste, Arcando pesos, mas com alegria. Me faço rio em fúria, embora afastes, Roubando as flores que se agacham frias Pra que só tu seja a flor que baste.

SONETO DO SILENTE AMOR

O Amor encontra fala que o expresse? E a fala que o expressa mede a Alma? Será o atroz silêncio o que mais tece O Amor de duas mãos que bem se espalmam? Profundo é o rubor que atinge as nuas faces cujo amor preenche o olhar, tornando vã a fala que insinua saber bem mais por verbos manejar. Sempre temi palavras sobre o amar Que mais profundo é no estar calado, Amando, sem falar-nos, a tocar. Que o amor sem fala é mais falado Pode-se comprovar no nosso olhar, Que escreve e lê no vão silenciado.

SONETO BANDIDO

Não demores demais, venhas desnuda, Que a veste é uma coisa que atrapalha. Também não fales nada, venhas muda, Que o tempo esgota e esta memória falha. A minha língua lamba bem a tua Nos buracos das bocas encantadas, Depois, que eu desça sobre as tuas luas A minha língua bem caramelada. E assim eu volte a espremer tua face, Numa trilha sonora de gemidos, Minh'alma na tu'alma a misturar-se. E, deitados na grama, em vão nos cacem, Em vão, pois nosso amor é bem bandido, Fugindo, para assim mais sequestrar-se.

PRECISO REMAR

Preciso consolar a vida cheia de morte pois seu choro aos meus ouvidos sorri mais do que suporto Preciso consolar o barulho cheio de silêncios pois seu choque vazio me faz trêmulo nas orelhas Preciso remar entre notícias cheias de sinais rubros e sentir a morte morar nos meus irmãos para registrar a alma na carne do alfabeto