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DIZEM DE UM POETA

Dizem uns que poeta é quem namora a lua, outros dizem que poeta é quem sofre em dunas gráficas, outros que poeta é quem cozinha palavras com a alma das coisas, ainda outros que poeta é quem fala às mulheres coisas que um não-poeta falaria sem convicção, ou que poetas são vagabundos escuros de luz, ou que são pauta indecente de cantos proibidos aos religiosos que guardam a lei ante portões de conforto e sagração de invernos, ou que eles matam os fatos com desfaçatez, mas se os matassem não seriam fatos, são eles que cegam os homens nos livros sagrados, ao falarem do céu, do inferno, de onde ninguém volta, queimado que seja, só os corpos despejam na gaveta seus líquidos concretos, pegajosos e efêmeros, alheios às poesias ocultas nas profecias, no fim a poesia é um engodo, criados por seres em tecido, moléculas, átomos, como este aqui, que quanto mais menos dizem que..

PARA LÁ

Eu estou aqui. Por trás destas lágrimas. A água pesa e salga. Com meus olhos salgados Talvez se enxergassem mares ignotos. No entanto, arde o vento tanto Que a retina explode as hélices. Por trás destes moinhos espero Que passe a febre desatada. Por trás dos telhados Que como uma cortina de vidro Balança ao sofrer do granizo, Eu, espírito caminhante, teço uma elegia Ao festival de versos que me elege. Na cachoeira de ritmos  pesadelos colocaram sonhos. O que esperavam nos mil lados? Livros se acumulam, molhados, do outro lado das lágrimas. Luzes da cidade se intensificam, lágrimas sobre os faróis. Uma mão envolve uma caneta  embora para lá da criação.

A CORRIDA COM OUTRAS VOZES

Foi-se a voz de infância que eu tinha. Perdi ali no rio. Caiu quando me abaixei. Foi. Quando me abaixei pra pegar a bola. A bola ficou  adolescente. Fugiu ali pra ilha do futuro. Quando corri sem ligar ao que vinha. Quando corri para ganhar a láurea. A corrida com  as outras vozes,  Na areia movediça do sovaco de Deus.

O MENINO DIZ DAS POMBAS

O menino diz que as pombas  é que são superiores. Sempre aqui na praça. Seus olhos são sempre piedosos. Quando os homens pararem, as pombas. Elas construirão um novo mundo de pães. Os homens tomarão seus lugares nas praças. E terão muitas migalhas.

QUANDO ELA DEU ÁGUA

Quando ela deu água para ele beber, naquele poço que ficaria marcado  como conto infantil, imaginou que os olhos dele eram dois pássaros desinteressados, mas quando os viu abrirem as asas em cicatriz se apiedou e se despiu