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FIZ CAFÉ E FOI BOM

Fiz café e vi que foi bom. Fiz meu mundo e gostei. Cortei a fatia do pensar com que acordei. Sentei na cadeira de um rei que morr(eu). Compreendi que não há restos desaproveitáveis. Vasculhei a memória naquele canto empoeirado. Encontrei um cavalinho preto de plástico. Alimentava-o com comidas de besteiras jogadas. Dessendentava-o com água abestalhada. Blasfemava plasticamente. Plastificava-o mas ele não morria. Meu pai me fez um brinquedo de madeira. Um triciclista. Durou muito aquele menino ao triciclo. Não tinha nome. Eu só gostava daquele brinquedo Como de um grande amigo. Um grande melhor amigo. Tomei o café e cutuquei Um caroço desamigável de mosquito.

ENTENDO-ME?

Entendo-me como um desentendedor. O que está à frente dos olhos cria limo, por querer entrar na visão que tenho das coisas. Desnaufraguei da ilha de Acharkistoucerto. Sei que há mistérios na pele que ignoro. Ignoro mistérios ou a pele? Esqueço de banhar os poemas. Fedem ao eu de máscaras feito. Tirei uma foto do pensamento justo. Estava baça, não enxerguei a essência. Talvez deva fazer outra coisa com as palavras. Talvez deva deixá-las no teto pra secar. Onde há grama para deitar o fluxo das coisas? Desentendo.

ENGATADO NO VAZIO

Nunca disse que faria bom ou ruim. Só admiti que talvez na noite eu plante gatos em cada verso magro. A noite é boa para os absurdos. Para minha casa não voar amarro-a no pensamento de um pássaro. Quando sonho, vivo de verdade todos os anseios desmazelados. Tenho uma orquestra de mosquitos, pago-os com o sangue das dez horas. Com meu ronco, alimento a mudez do criado-mudo. Meus olhos são pequenos para as órbitas não fugirem. Meus sonhos existirão, a preceder essências? Daqui há pouco, durmo engatado no vazio.

BALANÇO NAS NEBULOSAS

A música balança as nebulosas, brilhantes cabeleiras na noite, viajo na pele de varíola da lua. Não há bafos que não sejam de sonhos. Uma mariposa ronda a luz de casa. Há olhos em seu voo. A morte me espera, finjo que não a noto, ela fica nua para mim. Finjo que não a desejo. Um beijo. Moiras dividem um. Luas na nuca. Foto.

NAS ÁRVORES DE ONTEM

Quando cheguei em ti com um hino roubado a Dionísio, um raio roubado a Zeus, um perfume roubado a Vênus, estavas no enredo Com a ajuda das Musas criei para ti um tapete de poemas a que deitasses mansamente e sonhasses o que quisesses, esperei.... Conhecemo-nos de novo, Tu disseste, eu já fui tua, Tu disseste isso e eu teci com palavras nossa Igreja, pois, tinha fé no que me disseste por teu corpo e alma e além Olhei em teus olhos e me achei, eu estava lá, Lúcia, eu estava lá e o brilho de tuas retinas formaram lagos nos quais me atirei Cúmplices, em audácia, voamos nas aves de fogo da aurora, ao sabor dos ventos misteriosos do superior afeto, Sentamos nas árvores do amor até que de dentro brotassem nossas esperanças-flor para o Jardim do Tempo

STRESS DE PASSARINHO

Já lá vão meses do ano novo, Mais que os dez anos de Ulisses, Os fogos foram disparados Como um pensamento de amor  Das flechas de um mito Seis meses completos, Fogos de artifício, Olhávamos da praia Os céus que teciam nossos olhares Cores magníficas, Cogumelos de estrelas trançadas, Sete ondinhas todos pulavam Não perceberam o stress Dos pássaros que caíram Como aqueles rebeldes anjos Por entre o barulho dos fogos Pássaros tem stress Como todo mundo, E tem passarinhos com chupetas E choram diante de artifícios 4.000 pássaros morreram misteriosamente, Como a vontade de ficar de pé neste momento, Como este hambúrguer morre na minha boca, Depois de ser torturado na frigideira

COM TUDO QUE LEIO E SINTO

Tinha um caminhão chevrolet, um livro sobre o socialismo e vários folhetos de cordel, entre eles de João Acaba-Mundo, que lia até que acabasse o Mundo Claro do Dia. E minha mãe o amava. Todos o amávamos. Conhecíamos seu cheiro. Carregava cascalho e enxofre. Seu caminhão tossia. Um dia ele disse:  vou ser meu, já! Foi quando comprou o carro com tosse. Foi ficando oleoso, com graxa. Sempre embaixo do carro. Me pedia a chave de boca. Eu entregava, boca fechada. Me pedia o virabrequim. Era mui pesado. Ele sorria. - Vá ler um cordel! Eu ia. Li muitos cordéis. Que se enlaçaram no meu ser. Sobre Lampião, Corisco, etc. e tal. Embaralharam lá dentro Na armadura de Dom Quixote Feita de pensamento e sonho. Hoje, ele está dentro de mim Com tudo que li e leio e sinto. Vez em quando escuto uma tosse Bem fraquinha no beco da memória.