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PALAVRAS COLOCADAS NO PAPEL

Palavras colocadas no papel não voam Nem servem para sopa de letras. Antes, ferem com seus espinhos. Anteontem, feri o dedo indicador, Ao escrever letras com pontas finas. Desde que nascemos, Temos que pesar palavras. Esta aqui é de 200 gramas. Aquela ali tem 100 gramas. Pode matar. Ou fazer viver. E acolá há uma outra Pra ferir galáxias. Palavras que coloco podem dar azia, Podem ser vazias como um furo, E ter mesmo a minha alma.

PRIMEIRO, OLHO

Primeiro, olho. Coisas reais chamam-me entre as pupilas sacudindo centros de sensibilidade. Assim meu olho caminha nas letras, Cheio de extensões interiores: Dentro do ser do poema que se pensa original Um arremedo das pupilas do mundo.

O ORGULHO DA PANÇA E A LUA

O luar domina os lunáticos. Todos pulam, dizem: maravilha! Deixarão a vida bem exangues, No capital o sangue das virilhas. ... Sem os bons, os maus são de doer, Explorando a miséria social, No sovaco da bolsa a bem foder O orgulho da plebe nacional. ... Vai a lua e chega o sol; alvar, O lucro espreme a própria pança, Num barulho de estraçalhar. ... E o poeta, intoxicado, dança - Imagens de amor crepuscular -, Sugando os puns como lembrança.

O CURSO DO RIO

Sei que o rio deve seguir seu curso. Mas preciso descansar entre as pedras correntes, As pedras cristalinas de seus olhos. Gostarias, sei, que eu movesse para ti Diamantes com lábios, algo assim. Mas quero-te foder a toda hora Com meus instintos de pedreira em sêmen.

DIVISÃO NA POLIS

Dividida na polis a verdade bífida, vejo-a na avenida a evaporar. Um ministro goza um cargo enquanto mastiga pedras para bem falar. Tenho a sorte de curar feridas (as minhas) abertas com palavras-pasta. O presidente casa de novo em cima da urna. A sorte de ter a mínima palavra como reflexo hábil do (ir)real. Um índio chora, em sonho alcança a glória da ONU. O paradoxo da palavra ressignificando meu espaço: carreira doce de formissignos.

DIA DOS ANJOS

Anjos soltos f umam nas vielas O odor imutável d as praças cagadas, Baionetas se aprontam, c ansaço nos colos, Nos bairros centrais  b eirais sanguinários, Pombas alto gritam s em saber as balas Entre peles duras, o  toque insensível Reflete a ausência d e falas doces, É assim que tremem n o túmulo das periferias As dores inconfessas, a ssoam os anjos Nas asas o catarro dos corpos, E enrolam na sarjeta a mores com gasolina.