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UM RÁBULA COM FURÚNCULO

Assim a fábula do furúnculo: Um rábula de alma zen. Nariz com cravos aduncos. Lembravam-no no armazém. Não comprara alfinetes Para furar-se o homúnculo. Nem comprara estilete, Só um pedaço de junco. E terminou assim: Com o junco fez um cesto, Uma esteira E um assento de cadeira, Esquecendo o furúnculo E sua fábula o rábula De cadeia.

TRAEM ENQUANTO CHUVAS

Traem com tal desfaçatez, Homens sem pombas que são, Apenas para ganhar espumas marinhas. Usam a traição Para triunfar sobre bocas brancas Rastejando paredes com alma enlatada Qual lagartixas ou lata/gartixas. Abusam das costas alheias, A palavra dada é cravada no escuro, São formados em lama e lixo, Profissionais da antiética. Venais, Traem mascando chiclete, Enquanto chuvas caem de pedras Sobre as nossas janelas.

APAGUEM-NO (versão II)

O homem cai no mundo. Dão-lhe cuidados, leitinho, sopinha. Limpam as suas frestas com lencinho umedecido, fraldinhas, Em seguida, fazem-lhe festas, até planos lhe impõem. Primeiro e Segundo e Terceiro e Quarto, etc. etc. todos sabem. Bem depois, se presta, presta. Se não, não. Não sei. Quer dizer: surge de um ventre, em corte. Não é uma pasta (se não lhe passam de jeito). Não dá pra fazer um Ser com ele quando não quer. Às vezes, vira peixe em lata nas conduções e comícios. Não é um quê coisificado (só quando o coisificam). Ou melhor: nasce e cresce. Outros tentam equiparar-se com bengalas de bambu. Outros, sempre de quatro, só aguardam arreios. Outros, na língua esperam outras línguas. - Apaguem-no!, dizem quando decepciona.

DE CORPOS E DE SEDES (versão II)

Quando um corpo vai noutro corpo incorporando, uma dor vai começando, a dor do fim que se aproxima, quando o corpo cansa, descansa, e arranja outra rima para o amor. Quando um corpo tateia a outro corpo, parece uma tempestade que se apruma, que tudo derruba, além das árvores que a floresta do amor insinua em derrubadas távolas. Quando um anjo tem sede de um anjo, há como um preparar de céus e climas, e o tempo avança, avança, avança, sem se concretizar, ambos vitimam o espaço que jamais alcançam.

AMANHÃ

Diz a alma: amanhã é outro dia. Outro começo. Outro fim de mundo. Todos sabem, pelo menos a maioria. Se perdermos o amanhã? As perguntas são simples. Sempre serão simples. O poema é simples porque pergunta. O poeta a mesma coisa. Porque é o poema. É simples porque tem a pele verbal inquieta. Eu tenho uma pele que parece simples. Sangra seiva. Foi com minha pele que defendi a indefensável morte. Que professei religiões que justificavam meus culhões. Que professei religiões que justificavam acima dos meus culhões. É com a pele da mente que escrevo de mil formas. Mente a alma. A alma me é ente. Mente?

DIANTE DAS CÂMERAS

Jasão tava no bar com seu violão Asa Grande. Passa a Fernanda Rosa, filha de um grandão do contrabando. Tinha um bundão de paralisar prosas de alemão. Em casa, Medéia dava um plus nas mãos depois de limpar a bunda do filho do meio. Jasão tava no bar com seu papo vesgo. Passou a Firmina, filha de um patrão do morro fronteiro. Tinha uma cintura e seios pequenos, maneiros, de biqueiras puras, plenas. Em casa, Medéia chapinhava o pelo com o fio do pescoço remendado. Jasão tava no bar com seu pinho pronto. Passou Epifânia, filha de João um bicheiro que a estava esperando. Jasa passa a mão e João marca o cenho faz o sinal da cruz e um capanga apronta o cano. Como era um filme, interromperam as gravações e foi todo mundo comer macarrão. No set, Medéia desmonta a persona e vira Andréia Freitas, atriz da rede, ajeitando o silicone em tempo record.

VAMOS JOGAR

O belo é uma questão  de negar tudo. Metafísica de Descartes. Negar os sentidos. Negar o espelho. Negar o poema. Negar o sonho. Negar a negação. Um é bom. Não. Dois, três, quatro, etc.,  dá bem pra fazer receita poética, participar de júri, dar oficina, e masturbar omeletes entre si. Os lábios literários almejam com gana o efêmero púbis  da mídia? Não? Eis o jogo, a trama. Começa na primeira linha. Vamos jogar, sim? Penso, logo desisto Existir é isso: de existir Se faz o correto viver. Se há o perfeito, há o se.  E se....R?