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FIM RELANDO

Me espanta o fim das coisas que a TV me entrega sujas, sem cérebro. Acordo e vejo as coisas como são. Sempre o mesmo Cérbero. Os sacos de Caronte fuçados. Sempre no local de lutas Um ou outro amigo aparece. -E o meu processo? Tá no forno? ...Breve vou escrever sapatos E editar chão pisado. - Corno, o que você acha do Poder? -Tem a deformação da forma louca (Embora ache pouca). O cão me segue (cadela?) A velha louca que me pára e pela Com seu ferro quente. -Conheci seu pai, o Alencar. Meu pai era, disse-me ela, De pureza linda e sem-vergonha. Louco sou eu. Ela é laica. Dudu na rua com seu capa preta. Um dia veio um tiro em flor e dor. Sei disso, porque foi ontem o amanhã. Há um canto, enquanto estou riscando. Ela canta e não posso sucumbir ao seu nada. As roupas de Ulisses não me servem. O tempo apequenou. Vejo quatro caras de porco em escândalo. Falam da covardia de Ulisses ao se amarrar. A louca fala que as sereias gostam de gregos. Ela, a louca, s...

AGUARDANDO NO ÔNIBUS

No ônibus, muitas aves e animais. Todos aguardam o destino. Também há peixes prateados. Na parte em que ficam há um aquário. O motorista vai devagar pra não quebrar o que seja de vidro. Todos ficam aflitos com o cheiro de peixe. E não veem a hora de chegarem ao final do trajeto. O ônibus ainda passa por florestas, grutas, montanhas, geleiras... Como no trajeto não há rio nem mar, ficam os peixes prateados eternamente no ônibus.

FÓRMULA DE POEMA

Tenho um livro que fala pelos cotovelos e me enche o saco com sua fórmula  de se fazer um poema. Escolher o tema, um. Escolher as lavras. Depois deixar na gaveta. Passar vinte dias. Passar um mês. Se quiser até Passar muito anos. Tenho uma lagarta a atravessar angústias, emoções sem razão e o contrário. Vive a abrir a gaveta  como se abre um forno. Tem cabimento isso? Por isso que eu só leio livros como a uma borboleta que passou no século retrasado, me beijou e abandonou-me.

EXPIRAR INSPIRAR

Abrir a porta. Inspirar. Expirar. Voltar ao sofá. Expirar. Pegar o livro. Nele a tua vida. Não há prefácio. Nem posfácio. Tu terás de fazê-los. Tuas asas estão encolhidas. Apertadas contra o encosto. Penas espalhadas pela casa.

CANALHA CANALHA CANALHA

Farei agora estrofes cheias de fúria, Não como os de Brecht, um luminar Que adorava charutos E bolinava putas de bar Com candura E eu também odeio nazistas; Eles ainda moram aqui, fáusticos, Entre os fodedores institucionais Das gentes Você pode não crer, E merece uns bons tabefes por isso, E para deixar de marcar teus servidores Percebo há muito sua anti-humanidade; Escreverei estrofes anti-canalhas... Quando? Eu não sei, canalha, Depende da raiva que me provocares, Da raiva que instigares Na minha fúria criativa, Que hoje está de quatro diante de mim, Arregaçada como tua criadagem Estudas com suficiente desumanidade Para não atrapalhar o crescimento, E conquistar medalhas e diplomas, Alegrando a canalhice fundamental Logo logo terás um diploma, Correspondente às infinitas maneiras De ludibriar as gentes Canalha! Canalha! Canalha!

VAI CHORAR NOUTRO LUGAR

- Por que o poeta sofre tanto, Por que seu sangue escorre, grosso, E sua pele esconde o osso De sua alma escura e branca, E esta lágrima faz lago, E este sol parece chuva, E este som parece nada, E esta fome e sede e escada, Onde ao subir, subo, caindo, E este passo, voando sobre A Musa Insone, antigo mito Do poeta aborígene. (Ouvindo, o Poema se abriu, Estilhaçando-lhe as origens, De dentro de um corpo vil.)

NA BEIRA DO MEU MITO

Enquanto meu sono faz esteira, eu aqui na beira do meu mito vejo a mulher centauro montada numa tartaruga conclamando a todos para uma ciranda muda enquanto a noite vestida de silêncio faz alongamento sobre o solo de mim tão cheio de areia e pó de arsênico É o modo de eu abrir os olhos fechando-os e fazendo baratas em pedaços falarem com meu sono, enquanto a vassoura não os varre É uma maneira de eu esconder de mim a imensa falta que me cerca e me faz ver os insetos que não conseguiram me pegar apesar das leis do princípio de picar Na esteira um pedaço de jujuba sobrevivente do dente de Sísifo em meu sonho de Ícaro