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O SABOR INCLEMENTE DO VERBO

De meu verbo não tenho piedade, Vou soltando-o sem força e o tenho Ao longe em inteira liberdade, Enquanto fico olhando a tez do tempo. Não quero verbos que homens bem prendem Em suas religiões, filosofias. Mas sim os que às gramas reverdecem Com belo vôo em instáveis linhas.

PORTA EMPERRADA

Tanto empurrei a porta, que a travei. Tanto fiz na janela, que arriou. O leite que não quis bem derramei. E por negar o arco, derramou A seta todo o sangue que guardei. Dei amor ao tempo, que findou, Muito abracei o algoz de meus enganos, Beleza apareceu mas não ficou, O tempo botou traças em meus planos E, sem sincronismo, a mente gaguejou. A porta emperrou neste caminho. Mas já decidi. Vou detoná-la, Seja embora o poeta ser franzino, E o outono embranqueça a torpe fala, Mijando, esclerosado, e fale fino.

O HOMEM É O HOMEM

O homem? Pó de cocaína Junto ao narigão do demo, Que cutuca o mundo e geme Despertando céus efêmeros. O homem guarda esperanças Contra verdades que empestam. E inventa passos, danças, Com a ânsia que o atesta. O homem mede o ser em desmedida, E querendo mais possuir se faz feroz, Quanto mais possui mais excita Vontades de ter sempre maior voz. Somente a obra em paradoxo Levanta a humana alma arriada, Mas na vastidão plena do Cosmos Sempre será pó, brisa, mais nada.

CAPTAR SACRO

Precipito-me no abismo de teus círculos, que tateio ante o vidro absoluto dos olhos. Abalar dentro a rosa profana ao estalo dos teus montes, e apurá-los no amor da língua. Assim, captar o amor, sacralizando-o. Assim, pervertermo-nos, clarificando-nos.

SANTA POESIA(inspirado na oração pra S.Jorge)

Eu andarei desvestido e desarmado com Santa Poesia, para que meus plagiadores, tendo embora fôlego, não me alcancem, tendo dedos, não me ceguem, tendo distância, não me cuspam, e nem em grupos literários excludentes eles possam me fazer mal. Críticas egocêntricas de fogo o meu espírito não alcançarão, que as mãos dos escribinvejosos se quebrem sem o meu verso tocar, poemas frouxos se arrebentem sem a minha obra simular. Santa Poesia, me proteja e me defenda com o poder de seu santo e divino delírio, me cubra com o seu manto desesperado, dando primor estético a todas as minhas dores e aflições, e Apolo, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e deformações em meus escritos. Santa Poesia, estenda-me o seu desescudo e as suas poderosas desarmas, defendendo-me com a grandeza dos grafemas, e que debaixo das patas de sua fiel quimera meus plagiadores sejam esmagados a poder de letras. Assim seja com o poder de criar a partir da...

SER SOL SAL OLHAR

Quebro meus dedos nas quinas do ser E me embriago em suas tensões. Frente ao papel, a mágica nas mãos. De ser para o sol, no sal do olhar. Dou o sangue, ouro esmagando. Dou o sangue e o aço para o poema audaz. E assim sou rei em um trono entre os dedos.