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GRÃOS DE CORAGEM NO TREMOR

Estão na rua. São os homens cinzas. Batem ovelhas em paredes. Sempre de olhos infames, Cartolas cinzas como seus bafos. Aproximam olhos e boca das calçadas. O dia está fedendo sempre em suas bocas. As vítimas rodam em volta dos tijolos. A cal entorta, provoca enjoos. Conversam os carrascos entre si. -Nem todas, como se lê, são... Há alguma rebeldia luminosa. Ironiza a lã no bigode do monge. Um dia, Joãozinho Trinta pôs brilho na boca da gárgula. Há carnaval  ainda onde não sofriam. Há grãos  de coragem no tremor.

COMO O PIERCING DA VOVÓ

Espicaçar o ser com verbo e rinha E amarrar em traves frágeis linhas Trocar a paz das taças pela guerra De desprezar o unânime Por entre as mãos do acaso Soltar da Paz dos Egos Com desvarios no cego signo Socar com revoluções o pensar E isso não é novo agora Como o piercing da minha avó Lustrado por teias de aranha Não era novo no umbigo do ontem.

CARNE E GULA

(E o filme, Inconstance?) Quem sabe em mim te balance E com paixão te cutuque, E a febre de eros dance Embora a morte retruque. Quem sabe te telefone Ou, só, bata um bom batuque. Ou no escuro eu desconverse As falas n' alta fervura. Ou talvez eu faça mais. Sabes bem o quê. Me apura O costume de ajeitar Mulher gozando cultura. Aos pés de teus uivos loucos, Te lamberei os buracos. Tirarei toda aspereza, Partindo teu corpo em nacos. Salgarei nossos braseiros Deixando-te nua em cacos. Nos intervalos da rua, Ou em becos sem quimeras, Por sob a minguante lua, Nosso amor em primaveras, Enquanto a tara flutua, Faz nossa carne sincera. (Começou a luz na tela!).

E SOFRE E CANTA E SANGRA

(E a esfera me ouve ao poço) - Por que o poeta sofre e canta? Por que seu sangue escorre, grosso, E sua pele esconde o osso De seu amor em letra branca? Quando a vi E alisei-lhe o rosto Com o olhar Houve música de tal forma ensurdecedora Que me dançaram os tímpanos da pele -Por que a lágrima faz lago, E este sol parece chuva, E este som parece nada, E esta fome dela turva-me? Quando a vi E alisei-lhe o rosto Havia nutrição No seu sorriso explosivo E me alimentei -Se vou subir, subo, caindo, E esta ave, voando, finge-me A Musa Insone, parente de Eros, Que dela parte e ao peito atinge-me. Quando a vi E alisei-lhe a face Havia um frescor infrene Nas gotas em sua língua E me banhei (Deu-me a Esfera uma cuspida, Me estremecendo o fio da vida)

AMAR COM QUEBRANTO

Como amar quem vos respira Sem risco de sufocar-vos? Como subir na árvore-sal Se os doces não têm qual? Como amar sem se porém Em si é tudo e é quantum? Como amar quem quer que quando Se amar vem com quebranto?

HISTÓRIA DO QUE NÃO PUBLICOU

(Não, não tenho livro de poemas...) Já lhe mencionei brevemente um dos mais conhecidos poetas, filho do sabão e do amoníaco, nascido em Bucatão, suicidando-se – padecendo de femeoidolatria, – enforcando-se com um poema - o primeiro seu, pontiagudo e longo. A sua vida não foi propriamente vida, pelo frio que continha de solidão. Na opinião de Gurilundo, teve o poeta o supremo “dom de exaltar o nada." Um dos mais conhecidos poetas, filho do sabão e do amoníaco, publicou o seu primeiro livro aos cinco anos, seis meses, um dia, meia hora, trinta e dois minutos e alguns milionésimos de segundo. Mais tarde, exila-se na Bonifácia, onde vende seu corpo para coroas; parte para Praia Enorme, e ali vive de «leite, tirado de prostitutas do pasto pink da noite»; frequenta cursos em Zonabuonapeste, traduz Mendigos Poetas que escreviam com a merda mais amarela que pegavam. Frequenta os meios intelectuais e pede esmola aos exilados bêbados casados com lésbicas indecisas e ricas. Regressa à Bucat...