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JU TINHA VINTE E POUCOS

Ju foi tirada da pista. Tinha vinte e poucos anos. Seu pai ainda não sabe. Sua mãe ainda não sabe. Todos que olham seu rosto  Emplastado na avenida dizem: - Que pena! Tão jovem! Mas a dor trabalha em outro canto. Em outro canto está prestes a desaguar. Longe da avenida a casa de Juliana. Seus pais almoçam longe. Estão felizes longe. Não entendem ainda a dor que se prepara. A dor estará perto demais. Apertará os corações. Que despejarão oceanos com remoinhos. Mas por enquanto almoçam. Não entendem o fluxo preparando o dentro. Vão saber que ela tentou fugir com Geraldinho, Vão saber que não adiantou contrariar o namoro Em nome da rigidez de velhos e (in)seguros princípios, Vão saber que foi errado tratá-la com desrespeito. Quem agora iria passear com a cachorrinha de manhã Pra ela fazer xixi no jardim do vereador ladrão?

MISTÉRIO QUE ESPANTA

Quando o Rio sofreu um desvio pra que não houvesse enchentes Será que sentiu uma dor na coluna? O esqueleto do rio curvou apenas alguns graus Um Rio entortado, uma estátua sem cabeça, como nós, vítimas do tempo Quando a gente se dispõe a pensar nisso, esse mistério, apesar de todo sangue que vertemos ao entortar as coisas

ESPELHO-TE NOS CALHAUS

Não adianta fingir claros, Pois sou do escurecer. Um tal chora frente ao espelho Por ser eu a encanecer. Esse sofrer espelhante Como de alguém que se larga Ao espaço reflexivo Gera espinhos nas ilhargas. Embaixo das ondas tento Ser além do bem, do mal, Dando infância ao velho lento. E ao te ver bela, real, Sei que tenho sorte. Sento E te espelho nos calhaus.

FIOFÓ DO MUNDO

Te falo, sanguinolento: Os anjos de pés oficiais, Anjos que escrevem com sangue Ante o testemunho de estátuas Com armas de venalidade e corrupção, Gritam as mães com panelas Nas cozinhas de primeira grandeza Da sugada Brasília de Alões, Nas favelas virtuais do Ku do Mundo, Nos mocambos chilenos, Nos beirais das ruínas, em Somenos, Bairro de Brazuca, adrede maquiado Entre culhões/cuecas e consciências nos bolsos. E compram almas sem pele básica nos shoppings/currais eleitorais. É assim que anjos fumam em inferno aberto, Se abrigando do frio de enxergar O que resta e é ossário para contemplação dos fantasmas. É assim enquanto a pobreza em remela Assoa o nariz e cobre-se com papéis de bala Que eles chuparam muito mais No auge no nosso nazismo de 20 anos,  Seus nauseabundos dedos. Ontem e hoje, os mesmos de sempre  Cuspindo chicles verde-sangue Nas tuas ventas esquecidas É uma pena que você venda seus amigos Se caralhe, sanguinolento!

JAMAIS VOEI COMO AGORA

Nasci. Cheguei até aqui. Minhas asas sangram. É no espelho que sangram Do eu ao inverso. Desde pequeno, as manchei No centro incerto do ser. Com elas, jamais voei. Sua seiva dói Nos vasos do papel. Com elas, jamais voei Como agora.

ESPINHOS COM ROSAS

A essa hora, mães vendem coisas nas ruas. Pais vendem troços nas ruas. Filhos idem. Isso acontece há tempos. Meus pés já atravessaram a alma. Há espinhos de novo. Nunca encontrei imagem Sem espinhos nos braços. Numa floricultura, Espinhos vêm com rosas.

GENERAL GORILA DA DITA DURA

O General brada e senta-se à mesa. Saliva ele e, como o outro, ama o cavalo? Tirou zero na aula da infância. Nem sente os hematomas à sua volta. Nem sabe o General que foi outrora o Brasil Pra Cova. As vistas grossas embalam gorilas com amor(te). O General brada, educado como os restos no canto do pires. Não sente o cheiro dos jardins mudados. Sente-se abençoado em suas botas. O copinho de café quente que tomará amanhã em cima do canhão de brinquedo que imagina ter na sala. Anseia por banhar a consciência. O General nasceu puro mas sujou a consciência Naquele Polícia-Ladrão. Hoje, o cemitério se chama: o  General Saliva Salva!