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SEMPRE ESPERAM

Penélopes sempre esperam. Sempre tecem. E no dia seguinte destecem. Ulisses sempre viajam. E voltam. O ralo do banheiro sempre enche. E esvazia. O teto sempre cai sob chuvas. Mas a chuva passa. É difícil encordoar o arco mas não impossível.

EIS QUE FAÇO UM JARDIM

1 - A LUZ Eis que, então, faço um jardim. Revolvo a terra para que fique fácil pra você. Ali plantei minhas flores para nossa luz surtar. Ali, onde o espírito do dragão que libertaste dos olhos a afoguear os meus voa a calcinar a alma das coisas. 2 - AO CORTE Deixo este canto para que o corte. (Por escolha. por sorte.) Diz Rita Lee em meu jardim: -Pura prosa A poesia da carne. Dança Rita no youtube. (Lembra um pouco Dulcinéa.) E eis que este poema também fica quixotesco. (Moinho para sempre De sonhos feito.) 2 - AO LEITOR Mudo de Rita pra Springsteen .

PAREDES

Sempre tive que desafiar paredes. Nunca as desafiei muito, na verdade. Lembro de uma, certa vez. Queria fincá-las com os olhos. Mas os olhos numa parede Ficam moles. Envesguei os olhos por dentro.

SKINS SKINS

Dor à flor da pele flor de dor na derme força a por no cerne eis: pede excele Amor na dor adrede dói no led e o fere em luz que pouco adere excede Dor à flor da pele olor fino assédio ao grito que impede- o Amor-dor afere despelando adoece e mais dor adere agrega e o tece

DEPOIS...

Depois de amanhã, estarei con- victo. O Victo é o cara. Hoje, só trago nacos de dúvida. Minto. Vejo muito as baratas em poesias secas, manchadas do vômito das musas preguiçosamente contemporâneas. K diz de sua paixão por aquela guilhotina-para-pais. Às vezes, a lambia como se lambe um sorvete como o melhor do mundo. Às vezes, a chupava como se chupa o chupe-chupe da Dona Maria da rua por aí detrás. K diz que estou ficando poeta. Acerto uma a cada ano. Quase um chato sopa-de-letras. Diz que vê-lo em plenas 23,34 horas é insano, ainda mais com luzes fluorescentes. Mas eu estou só fingindo. Manda que eu vá me catar. Mas lhe digo que não sou pulga autofágica. O que é isso mesmo que eu me inventei? Depois de amanhã, não o verei mais, porque estarei curado. Depois de amanhã, tomarei remédios de não-ser. Há amigos que me doem quando o poema se espelha e se masturba. Querem que eu seja sempre o da estabilidade estilística. Depois de amanhã, estarei convicto de estabilidades. Depois de a...

O SANGUE

Deuses vivos e mortos Vomitam em guerras  Nacionais e Internacionais. Nem ouses vomitar aqui Ó Deus que me fiz! Baratas pedalando no lixo nem me olham nem me acenam nem desdém sequer me dão. O sangue só envergonha Quando temos vergonha.

O TRÁFEGO

O tráfego cruzando com gentes: assim as moscas nos solos e paredes. Um homem como buraco na parede diz que a vida não é um romance. A náusea desaparecerá com a canção se pescarmos seu mar adentro.