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RUA DE ILUSÃO

Gosto de dormir. Quando estou pegando no sono, Tudo que pensei no dia ido escorre. Vejo irem pela escada as frases do dia ido. Demoro a dormir, pois isto me chama a atenção. Não sei se ocorre com todo mundo. O que pensei vejo descer os degraus. É o que querem que eu pense as estrelas'? Sei que voltam quando durmo. Não tiram os sapatos. Se enfiam debaixo da cama. No lugar do bicho-papão. Que ficou seco. Se vestem de paralelepípedos e me rendem À sua Rua de Ilusões Poéticas.

DIA DE FEIRA E MEXERICA

Fomos à feira, éramos dois a apertar tomates, laranjas, testando a consistência do que iríamos comer. Lá no fim o tempero, pimenta com cominho. Ela sabe para que serve. Já alho, conheço bem. Dúzia e meia de laranjas. Para suco acompanhando Uma boa refeição de carnes. Laranjas, uma dúzia. Fomos à feira, éramos dois. Quando chegamos, Seus seios eram duas mexericas. Chupei-os, como sempre faço Pra fortalecer o casamento. acima pintura - Arimatéia Feira II - de JOSE ROSARIO

LOUVADAS MULHERES

E assim foram condenadas à beira do tanque das inconsciências. As mulheres de Atenas, se lembram? Faziam, atendiam, e ainda fazem cafuné, atendem fomes. Não percebem a terra até o pescoço, que lhes foi entregue enquanto sorríamos. Como que é? Estão me tirando? Vão dizer que não... E aquela terra então, aquela invisível, que enterra a dignidade delas ao recato e doçura do aço? Demos-lhe o Véu. Telas Onde pintam O Pai, O Filho, o Deus Virilha. Nem perguntam sobre nosso muque. Conseguido por lançarmos pedras ao seu orgulho de existir. Pedras pesadas que nos consomem quando as atinge. Pedras que lhes atiramos sem remorso acertando em ricochete nossa alma ou alguma coisa parecida. E nas igrejas algumas pedem perdão por nós. E ainda lavam nossos machados com o corte de seus pulsos. E então a gente segue, bons pais, bons filhos, bons irmãos, fazendo poemas louvando-lhes o materno dom, estendendo-lhes o cavalheirismo, que se impõe mais forte e assim as faz m...

O RITMO DA RUA

O começo da rua... e tudo hoje está tão deserto: uma folha que voa ao vento, um dente perdido na boca de lobo a focinhar restos de chuva e papéis de sorvete, um doce pé-de-moleque sangrando, mordido, uma pipa ralhando com o vento travesso Estranho o começo da rua, e tudo está tão longe, embora tão perto do lixo no saco aberto, e, depois do acidente, o resto das orações encostado na parede final Antes do meio, quando tudo começou em idéia, o ritmo antigo era dela, a Justiça, e ninguém estranhava as ruas

FEBRIL

Escorrendo, finitudes no rosto. Escorrendo, baratas soprando na orelha dos postes, Fofocas de grilos, Promessas com poças, E o coração fica febril  Quando ela abre o guarda-chuva.

DO INENARRÁVEL

Inenarráveis vermes de angústias A passear entre homens e seus infernos, Dispostos nas brechas das almas. Pouco interessa às máscaras urbanas Sua volátil argamassa de hipocrisias. Dois homens de pé perto de um carro Fazem acordo para ganhar milhões. Farão muitas entregas Regadas a "papus corruptus". Nas praças onde sem-teto dormem, Estátuas acarinham cães. Onde a indiferença faz graça, Inconsciências olham para os lados E escolhem um partido político.