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NO ESPELHO MORTO E VIVENTE

....Há quantos dias lhe chove? Sua árvore encharcada? Mas a chuva no espelho Faz sua vida afogada? Mas que seu ser tem a ver Com o vidro que o reflete? Se seu cérebro em sinapses de solidão se traveste. Quer ser jovem, mas já foi. Será que nasceu idoso O seu ser, caco de espelho De meu eu, de d(eus) guloso? Será que em si vai chover Como no espelho molhando? Ao espelho o eu a ser Mais se reflete, eu/stando...

DESENTENDO CHAVEIROS

Você me diz  que não sou louco,  só um pouco, que não diferencio Cleópatra de Creio em pátria. Que vejo anjos de coágulo nas pernas fugidos do Inferno-São-Os-Outros. Você me diz que é tarde para mim, mas quem entende os próprios chaveiros? Adianta exigirmos do espelho o normal de decência lógica? Você quer me atar com absolutos e embaça minha laranja na fruteira. Você afirma e eu fico surdo, pois só o relativo pontifica a mistura do meu dia com feijão, e um anjo escabelado se estica na rede de sarcasmos que me dão as mãos dos sonhos que mais vão quanto mais ficam no chão.

TENHO DE QUEBRAR

O rosto já não espelha. Endureceu após o dia. Há um deserto por cima. Sou camelo e cachoeira. Tenho vinhas de estresse. Antes, escorria pelos braços, tronco e pernas. Tenho impressão que esvazio farpas. Agora, olho o espelho. E lembro que não posso olhar por muito tempo. Tenho de quebrar oito horas.

O NAVIO

Um navio. Entro. Vejo o mar ao longe e perto. Sujo de óleo e homens. Dentro, uma piscina. Gente gorda, gente fina. Foi dia de visita. Saio. O navio sonha. Não, navios não sonham. Eu sonhei que era comandante. Que cantava aos tripulantes. Aos visitantes. Aos pagantes. Sai. Fiquei só com a praia. Nem moedas para um sorvete. Passam banhistas. Tento esquecer o navio. O navio tenta me esquecer?

SE EU ME CHAMASSE SETE-FACES (a Drummond)

Vejo gente multiplicada por gente sobre gentes.... Pra que tanta perna, tanto movimento, nada lento, tudo rápido? Poucos cultivam o bigode. Só conheço o Tião e o seu irmão. Creio no segredo do sonho quântico. Somos eternos em processo. Eu mesmo me abandono a devaneios sutis. A galáxia é vasta. Meu coração adora um torresmo com cevada. E ainda me comovo com a morte na TV. Se eu me chamasse, eu me atenderia. E se meu nome fosse Raimundo? Voaria com solução De formicida e rima. Ou não.

SUOR EM CUBA

Em Cubatão, há o suor na avenida 9. Há movimento abaixo e acima. Há ambições, sonhos. Moças almejam moços tranquilos. Que as amem e lhes deem filhos. Nem sabem por quê o útero clama. Mulheres amam ou não. Homens não amam ou sim. A solidão clamando. Pardais quicando. Há quem ame o sol e a lua somente. Há maquinismos. Houve poluição. Alopécia nas serras. Dizem que não há mais. Penso Cubatão, depois de tomar banho. Amo esposa e filhas e ilhas findas. E aos amigos, sóbrios e bêbedos, De religião, política, teatro, E levedo. E a mãe e irmãs, Desde cedo. Amo a cidade velha. Há quem ame às sementes Do amor, somente.