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CHORÃO DE RESSACA

Eis que vomito no rio do seu pescoço com anseios verdes depois de você me deixar falando com as moscas que aliás são muitas na sua casa porca agora quando tenho ódio ao vento pleno de polens a direcionar a alma dos galhos e vou matá-la amanhã com o amor de ontem hoje fico intacto

DUAS EM UMA COMO SE FUNDIDAS

Procurei por todo lugar, embaixo da cama, nos escaninhos do computador, nas gavetas, às quais tive de consertar, com um preguinho nos cantos, procurei no corredor, debaixo da pia, onde encontrei uma gota gelada, solitária, e, em ato de misericórdia, a matei com um paninho, procurei na televisão, no sofá, detrás das duas máscaras venezianas, que trazem cada uma um espírito, e não encontrei, até que indaguei da esposa, que jogava cartas virtuais, sobre a minha alma, e ela me respondeu que estava junto da dela desde que nos casamos naquela longínqua noite e de tão agarradinhas é como se minha alma não existisse, fora da dela a foder a minha com gozo de deuses com satiríase

MITO DE CARNAVAL

Nas memórias da infância o carnaval tinha cabeções e fogos até na ala das baianas. A morte por vezes aparecia nos carnavais antigos, mas a morte que se lançava em cada um vinha ao ritmo da bateria das tempestades em compasso-paixão de trovões. Os orixás não tinham medo de encarnar e de ficar com as ninfas-destaque. Ele na época era bom em reter os nomes. Ele na época era bom no trançar palavras. Conseguia rasgar sem retalhar os anos febris e esperançosos. Sabia vestir roupa de pássaro, de sapo, de raposa, de leão, de lobo, e, sem medo, devorava o sambódromo,  como um animal, a seguir os rebolados das árvores, quadris em caracóis. Mas, agora, ele era um mito, uma crença escorrendo no tempo e não adiantava juntar seus visgos.

A MOSCA FORA

Num pote de vidro por três períodos a debater-se  o ser incerto  se encolheu insetamente "Nosso amor-próprio  parece exaltar-se  com a censura que fazemos,  e humilhar-se com o louvor que damos" Se debateu o ser em certo sentido além do que se viu aberta a compreensão a frases e fases que não eram suas O próprio umbigo - ídolo eterno  dos literatos que ajoelham errado A mosca enlouqueceu  se debatendo no pote e o pote se abriu,  foi então que renasceu  no amor da cozinha,  onde um perfume de bananas tomava a mesa

A MENINA DE DREAD

O ventilador o olhar o som invólucro coral de poeira cupins deixam asas na madeira na cadeira uma marca no copo um compasso um celular o óbito da noite o bote do vereador que não dorme e desespera por uma vaga pra correligionária no sofá o suicida perto da ponte olha pros lados antes de pular por alguém que o empurre na hora certa a maçã que caiu no chão e o amor de duas moscas uma em cima da outra meladas ainda do pudim que a menina de dread fez e de novo o olhar sobre o campo onde agonizam milhares de cupins